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TEXTO E FOTOGRAFIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

 

O rio Emajõgi passa muito devagar por Tartu. Talvez queira assistir com tempo à vida que se ergue nas margens, as fachadas limpas dos edifícios, cores suaves que recebem a luz desta hora, as torres pontiagudas das igrejas, espetadas no céu. A superfície do rio não se deixa perturbar, é uma superfície uniforme. Aqui, na cidade velha, vejo o parque do outro lado, as árvores nuas deste outono, quase inverno, o rio reflete-as e cria um mundo ao contrário: árvores que crescem para baixo, recortadas sobre um céu branco. É preciso inclinarmo-nos sobre as águas para apreciar esse céu.

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Tartu é a segunda cidade da Estónia, a principal da região sul do país. É considerada a capital universitária. Essa é uma característica que se sente nas ruas. Grupos de rapazes e raparigas enfrentam a tarde com grandes casacos, gorros, cachecóis e luvas. Mesmo assim, às vezes, levantam as vozes para rir-se de alguma coisa. No entanto, quando o fazem, mantém sempre a polidez. Os estónios orgulham-se da sua civilidade.

No nosso canto da Europa, o que sabemos nós sobre este canto? Desde uma ponta do mapa até à outra, precisamos de atravessar todo o continente para chegar aqui. Nessa viagem, sobrevoamos várias culturas fortes, vários idiomas da família do nosso ou não. É fácil pararmos no caminho. É fácil que, em algum momento dessa travessia, não continuemos: fico já aqui.

A Europa é uma enorme barreira entre Portugal e a Estónia. Não se trata apenas de distância. Há países que conhecemos muito melhor e que estão bastante mais longínquos, noutro hemisfério, que aproveitam o verão enquanto suportamos o inverno.

Nas ruas, passo por homens de mão dada com os filhos, crianças pequenas a falarem em estónio. Passo por mulheres com casacos de peles, passo por mais grupos de universitários. O que estarão a dizer? Neste canto da Europa, o que saberão sobre o nosso canto?

As faculdades da universidade ocupam edifícios enormes. Olho para o seu interior através de janelas muito altas. A luz é amarela e, lá dentro, as pessoas estão sem casaco. Dentro das casas, existe outro mundo.

Ontem, aceitei um convite para jantar. Descalcei os sapatos à entrada. Enquanto as crianças brincavam sobre o tapete, a televisão ligada e sem som, coloquei essa pergunta: o que pensam sobre nós? Não sei se entendi completamente as respostas. Às vezes, as palavras têm significados escondidos, têm sombras, principalmente quando não estamos a comunicar na nossa língua.

Em qualquer dos casos, o rio Emajõgi não altera a sua velocidade, desliza, longo corpo. Atrás de mim, uma estátua com músculos de bronze, representa a liberdade, recorda aqueles que caíram na guerra da independência (1918-1920). Esses são valores que também conhecemos no nosso canto da Europa: liberdade e independência.

Os países e as cidades nunca são uma única coisa: Estónia, Tartu. Contemplo este outono, quase inverno e lembro que, ontem, durante o jantar, disseram-me que, nesta época do ano, costuma já ter nevado. Não duvido, este céu parece bem capaz disso. Mas aqui, à minha frente, tenho um barco de madeira com mesas e cadeiras no convés. Está já à espera do verão.

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publicado às 11:34

TEXTO E FOTOGRAFIAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

 

De olhos fechados, distingo devagar cada um dos sons que me rodeiam.

 

Os tambores lá ao fundo. São grupos de músicos berberes. Sentam-se num círculo e, cercados por um muro de pessoas, tocam sem parar. Cada batida na pele desses tambores atravessa a praça inteira e chega até aqui. Ao longo desse caminho, atravessa o rugido de todas as vozes. São vozes de uma multidão de indivíduos, homens, mulheres, crianças, vozes mais próximas e mais distantes, são vozes misturadas, vozes que serpenteiam como o som das cornetas, também lá ao fundo. As cornetas dos encantadores de serpentes possuem uma melodia estridente que parece infinita. Segue sempre em alguma direcção, decidida, mas nunca chega ao seu destino. Essa melodia evolui como uma sirene contínua, constante, mas sempre diferente, em evolução. Mais perto, o zumbido esforçado das motorizadas, a hesitarem um caminho de curvas entre as pessoas que cruzam a estrada em todos os sentidos, gente carregada de sacos e de vozes, mais vozes ainda. E perto, aqui mesmo, à distância da minha mão, o som de loiça a tocar a mesa, o som de uma colher a tilintar no pires.

 

Abro os olhos. O empregado chegou com o chá de menta e está parado à minha frente. O seu sorriso é brando. Tento responder-lhe com um sorriso igual. Afasta-se satisfeito e volto a sentir o sol na pele do rosto. Não preciso de fechar os olhos para receber esse conforto. O dia quer terminar e tem preparada a luz perfeita, redentora. O chá não está demasiado quente, está espesso e perfumado.

 

A praça Jemaa El Fna muda com as horas do dia. Durante a tarde, cada laranja dos vendedores de sumo é um sol. Sentadas em bancos baixos, há mulheres a segurarem seringas cheias de henna. Por pouco dinheiro, desenham cornucópias cheias de detalhe nas costas das mãos de turistas, mulheres ou raparigas. Muito perto, há homens a segurarem trelas, a passearem macacos vestidos com roupa de pequenas pessoas peludas. Também esses distinguem turistas entre a multidão. Os macacos trepam-lhes para os ombros e quase de certeza que os turistas hão-de querer mostrar essa fotografia lá para onde regressarem. Uma moeda de dez dirhans não é pedir muito pela garantia dessa sensação.

 

Ninguém pode parar o tempo. Durante o fim longo da tarde, há aqueles que ainda olham para o passado. Como os donos dos macacos, os encantadores de serpentes têm pressa de aproveitar a última luz, incientivo a que os turistas tirem mais uma fotografia. Envoltos pela insistência das tais cornetas, há rapazes que querem convencer turistas a posarem com serpentes enroladas nos braços. Mas o tempo continua, ninguém pode pará-lo. O sol desceu já por detrás do minarete da mesquita de Koutoubia. Os raios de luz que o circundam tornam-no incandescente, como Alá. E, de repente, esse nome divino, feito com uma vogal que enche a boca e pode ser suspensa, é gritado desde várias direcções, estendendo-se a partir dos altifalantes no ponto mais alto das mesquitas, como se cobrisse a cidade inteira. Entre a urgência daqueles que atravessam a praça, é quase certo que alguns se dirigem para essas mesquitas onde os chamam. Mas a praça, como o tempo, continua sempre. Homens de bigode e camisas rasgadas terminam de montar todos os ferros das barracas de comida. Juntam essas peças todos os dias, organizam esse barulho de ferro contra ferro. Agora, falta apenas um fio muito fino para que chegue a noite. Debaixo das barracas quase montadas, já ardem as brasas onde serão assadas as espetadas de carne moída.

 

Não muito longe, à volta de um círculo no chão, formado por garrafas de coca-cola, há rapazes e crianças que seguram canas de pesca com argolas na ponta de um longo cordel. Se conseguirem enfiá-las no gargalo, ganham a garrafa. Ao lado, homens vestidos de mulher, com o rosto tapado como muitas mulheres, dançam exageradamente. Entre os vários grupos, passam os vendedores de água, equilibram um exuberante chapéu garrido, com roupas também garridas, com medalhas penduradas e copos de cobre. Apontam para os turistas e fazem o gesto de tirar uma fotografia. O som dos sinos que agitam encontra um lugar entre todos os outros sons. Depois de seguir os vendedores de água com olhar durante minutos, parece-me que são um bom símbolo de muito do que se vê na praça. Estão vestidos de forma tão folclórica que parece artificial, a insistência com que chamam os turistas também não lhes acrescenta genuinidade. No entanto, uma mulher e uma criança aproximam-se deles. O sino deixa de tocar. O vendedor enche um dos copos de cobre com água retirada do seu enorme cantil de cabedal. Enquanto a criança bebe, o homem e a mulher esperam. A criança bebe devagar, dentro de um silêncio pequeno, difícil de distinguir. Quando termina, a mulher dá uma moeda ao vendedor, que volta a tocar o sino e a meter-se com turistas. Ou seja, o vendedor de água vende efectivamente água, sacia mesmo a sede a alguém, mas se puder lucrar com o turismo, aproveita. É assim com quase tudo o que acontece na praça. Há uma multidão de marroquinos a assistirem aos músicos berberes, batem palmas, a música entra-lhes mesmo dentro do seu ritmo pessoal. Mas chega um turista e há um músico que imediatamente lhe estende o chapéu, a pedir moedas: dirhans, dirhans, dirhans.

 

Anoitece sobre a praça, sobre toda essa gente. As luzes das barracas onde se vende tigelas de caracóis estão acesas desde o lusco-fusco. Em Marraquexe, é na praça Jemaa El Fna que tudo começa e, não há qualquer dúvida, é também na praça Jemaa El Fna que tudo termina, oxalá.

 

Cada vez que se fala de qualquer coisa no futuro, Mohammed diz sempre: incha' Allah. Significa "Deus queira" em árabe. Quem usa essa expressão está a afirmar-se nas mãos de Deus. Essa é a origem etimológica da palavra portuguesa "oxalá". Enquanto avançamos pelas ruas do souk, pergunto a Mohammed se nos dirigimos para a Madraça Ben Youseff. Ele, como seria de esperar, responde: Incha' Allah. Oxalá mesmo, penso eu. Se me perder dele, não vai ser fácil encontrar o caminho de volta para a praça.

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Há de tudo, pelo menos é o que parece. Todas as portas de todas as casas estão rodeadas por artigos à venda. Quando se olha para algo, o vendedor chega imediatamente. Na maioria das vezes, não é preciso olhar, o vendedor, poliglota, começa logo a perguntar qual a melhor língua para conversarmos: Italiano? Español? Français? English? Entre tudo o que está em exposição, nota-se que, às vezes, há uma concentração maior de determinado material ou ofício. Se houver muitos homens sentados a soldarem ou a martelarem chapas de metal, por exemplo, chegámos ao Souk do Ferro. Esse é um bom lugar para procurar candeeiros, mesas ou objectos que, se apanharem chuva, hão-de enferrujar, oxalá. Se houver homens rodeados de serradura, a girarem com as mãos e com os pés um aparelho de correias, no qual lâminas afiadas moldam ripas, chegámos ao Souk da Madeira. Também há o Souk dos Tapetes, claro, ou o Souk dos Babouches, onde se pode encontrar aquele sapato bicudo, típico dos países árabes, com toda a espécie de padrões, com o emblema de quase todas as equipas de futebol. Para além destes e de muitos mais, o Souk dos Tintureiros é onde as cores são capazes de ser ainda mais vivas, enchem os olhos. Pouco depois, não são necessárias indicações para chegar ao Souk dos Curtidores, descobre-se pelo cheiro.

 

De manhã, os raios de sol atravessam os telhados de palhinha que cobrem as ruas destes mercados. São raios oblíquos, bem desenhados que tocam os objectos, os olhares e o movimento de todas as coisas. Belek, belek, grita um homem que passa a empurrar um atrelado ao longo da rua estreita, pode levar legumes, panos, loiça, pode levar seja o que for. Mohammed explica-me que "belek" significa "cuidado". Compreendo. Por mais gente que encha a rua, há sempre espaço para as pessoas se afastarem. Nem que seja para o interior de uma loja de perfumes naturais, sabão vendido ao quilo, remédios, chás e frascos cheios de cores e matérias. Não quero comprar nada. O vendedor acredita que sim e possui solução para problemas que me diagnostica instantaneamente: queda de cabelo, acne, falta de vigor. Em francês, repete "vigor" e faz-me uma expressão marota, para o caso de eu não ter entendido à primeira.

 

Volto a sair para a rua. Mohammed nunca me perde de vista. Não sou capaz de fazer o mapa mental destas linhas embaraçadas que, às vezes, parecem voltar para trás. Mas havemos de chegar à madraça, oxalá. Por baixo de um sinal de proibido com o desenho de uma motorizada, passa uma motorizada.

 

E chegamos. De fora, não se imagina o interior. Há uma entrada num muro com a cor de todas as paredes de Marraquexe. Por isso lhe chamam "cidade vermelha". Em rigor, é mais ocre do que vermelha. Mas, sim, é avermelhada. Mohammed, no seu tom professoral, explica que há uma lei que determina que as casas da medina de Marraquexe têm de ser pintadas da cor da casa ao lado. É por isso que todas as casas são da mesma cor, com ligeiras variações. A entrada na Madraça Ben Youssef está encostada a um desses muros opacos. Depois, encontra-se todo o detalhe que a arquitectura marroquina do século XVI era capaz. O trabalho melindroso do gesso esculpido com versos do Corão ou dos pequenos mosaicos a criarem padrões caleidoscópicos, a acompanharem arcos, colunas, tectos. Ou o pátio central, aberto ao céu, com um lago de água limpa sobre azulejos, água fresca. Por seu lado, as celas dos novecentos alunos que a escola corânica chegou a ter são um exemplo de austeridade. Como pequenos buracos na cal, sem janelas, as celas eram distribuídas consoante o melhor ou pior rendimento do aluno. Frescas no verão, exigiam cinco tapetes no inverno para se alcançar uma temperatura aceitável.

 

Ao contrário das mesquitas ou da maioria dos edifícios religiosos, a madraça pode ser visitada por não-muçulmanos. Ao lado, o Museu de Marraquexe também merece uma visita, menos pela colecção de moedas do que pela arquitectura do palácio do século XIX, organizado à volta de uma divisão central com um candelabro gigante.

 

Em Marraquexe, no que diz respeito a monumentos, é também imprescindível passar pelos Túmulos Saadianos. No casbá, na cidadela cercada por muralhas, longe do labirinto que leva à madraça e ao museu, já sem a companhia e a ajuda de Mohammed. Havemos de voltar a ver-nos. Oxalá, oxalá. Os dezasseis túmulos reais datam dos séculos XVI e XVII e, também eles, elaboram o trabalho em gesso, madeira, azulejo e mosaico até à última loucura do mais ínfimo detalhe.

 

Não muito longe, o Palácio Baadi é hoje um espaço enorme rodeado por grandes muralhas de adobe, onde vive uma enorme colónia de cegonhas. Subindo esses degraus, encontram-se vistas excelentes sobre o ritmo frenético do casbá e, também, sobre o vagar elegante das cegonhas, a tratarem de qualquer assunto doméstico na intimidade do seu ninho. Dessa altura é possível imaginar aquilo que deve ter sido esse palácio, mandado construir com os materiais mais nobres pelo rei Ahmed al-Mansur, no auge da dinastia saadiana. Composto por centenas de salas, o palácio foi erguido depois de uma vitória sobre os portugueses no século XVI, tendo mais tarde sido demolido pelo Mulei Ismail Ibn Sharif com o propósito de usar os seus materiais para decorar Meknés, a cidade imperial que ele próprio mandou construir.

 

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Nas ruas do casbá, não é preciso imaginar muito. A grande quantidade de acontecimentos simultâneos prescinde desse esforço. Há homens a remendarem pneus de motorizadas no passeio, limpam os dedos sujos de óleo à parede. Entre pequenos postos de venda de cartuxos de favas ou grão cozido, passam carroças carregadas de areia, puxadas por burros resignados. Toda a gente se dirige a algum lugar. Sigo um homem que carrega dois molhos de galinhas vivas, presas pelas patas e chego ao mercado, onde se vende comida de todas as cores e onde gatos se deslocam devagar, concentrados num mundo só deles.

 

O casbá, as ruelas dos souks, a praça Jemaa El Fna, tudo isto fica na medina. Quando os guias de viagem ou os turistas estrangeiros referem Marraquexe, estão a falar quase exclusivamente da medina antiga, que é o espaço interior das muralhas. É no topo de um terraço que se consegue ter a melhor noção da cartografia intrincada e, ao mesmo tempo, é também aí que se consegue encontrar suficiente distância da azáfama e relativizá-la. Ainda assim, há mais cidade. É fora das muralhas que se estendem as avenidas mais modernas e os prédios, onde vive a maioria dos cerca de novecentos mil habitantes da cidade.

 

O visitante que privilegie o exótico tem poucos motivos para atravessar as muralhas. Mas será uma pena sair de Marraquexe sem ter visitado o Jardim Majorelle. De repente, as ruas dos souks, a confusão ou o trânsito de motores e pessoas deixam de existir. O jardim foi criado ao longo de várias décadas do século passado pelo pintor francês Jacques Majorelle e, a partir dos anos oitenta, recuperado por Yves Saint-Laurent. Dezenas de espécies de cactos, fontes, pássaros ariscos, criam uma harmonia e um silêncio que, em muitos pontos da cidade, se julga impossível. A tranquilidade é valiosa, é necessária.

 

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Impressiona que, tão perto de Portugal, exista um mundo tão diferente. No centro desse mundo, entre a montanha e o oceano, existe uma cidade que condensa uma parte importante das suas riquezas. No centro dessa cidade, como no exacto centro do mundo inteiro, existe uma praça. É lá onde tudo começa e onde tudo termina.

 

À noite, existem focos de luz espalhados pela distância. Mesmo assim, não são suficientes para iluminarem bem a praça inteira. Caminha-se pela quase escuridão entre um ponto e outro. Um contador de histórias garante qualquer coisa em árabe. Quem o ouve e entende, abre bem os olhos, a imaginar. Há gente sentada em bancos de madeira, à volta de grelhas e de fumo, a segurarem espetadas com a mão e a tirarem cubos de carne com os dentes. O ritmo dos músicos não diminuiu, os tambores aproximam-se ou afastam-se, transportados pelo vento. Grupos de acrobatas equilibram-se numa pirâmide, os pés sobre os ombros ou sobre as cabeças. Alguém me toca no braço para me tentar vender um relógio. Passam motorizadas e carruagens puxadas por cavalos, passam crianças a correr. Um anão toca violino.

 

Amanhã chegará outro dia, oxalá. Será um dia completamente igual e completamente diferente deste. Essa é a natureza do tempo. Sim, amanhã chegará outro dia, oxalá, oxalá.

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publicado às 18:02

Gorongosa

10.10.18

TEXTO DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO // FOTOGRAFIA DE PATRÍCIA SANTOS PINTO

 

Os animais não esqueceram. Quando percebem que estamos a aproximar-nos, famílias inteiras de macacos fogem diante de nós, trepam aos ramos mais altos; as impalas saltam na distância, traçam arcos perfeitos, é elegante o medo que as leva; até os leões, perante o nosso avanço cauteloso, se mudam para uma sombra mais distante.

 

Às sete da manhã, a terra ainda está fresca. O capim fura uma neblina rasteira que não ultrapassa a base dos troncos. As árvores sabem muito, desenham uma paisagem de riscos que se estende até onde os olhos aguentam ver. No ar limpo e no silêncio, o cheiro fértil da terra e o som de uma enorme multidão de insectos, aves que dispõem deste céu sem fim. O início do dia parece o início do mundo e, no entanto, há rastos que o vento apagou nos caminhos, mas que ainda se sentem.

 

A casa dos leões não é usada há muito tempo. Hoje, só o simbolismo da sua história tem utilidade. O ano de 1940 ficou assinalado a cimento pelos portugueses que a levantaram. Então, destinava-se a receber os visitantes que vinham caçar. Com milhares de hectares à escolha, decidiram construir a pouca distância do rio e, na época das chuvas, o edifício ficou inundado. Dois anos depois, quando os homens o abandonaram, os leões reclamaram-no. Foi a partir daí que, ocupada por leões que subiam pelas escadas até ao terraço ou que permaneciam no seu interior, começaram a chamar-lhe "casa dos leões". Essa época terminou quando as paredes foram atravessadas por rajadas de tiros, quando os degraus das escadas foram destruídos. Durante os anos da guerra civil, os animais selvagens foram dizimados para servir de alimento aos militares. Em 1992, não houve cessar-fogo para os animais da Gorongosa porque, a partir daí, chegaram os caçadores furtivos.

 

Quando passamos pela casa dos leões, são estas memórias que se distinguem naquelas ruínas sujas.

 

Às vezes, quando passamos, há animais que ficam parados a olhar para nós. Fixam-nos com a mesma curiosidade com que os fixamos a eles. Há tanto que queremos dizer-lhes, mas esse instante dura pouco. Distinguem-nos um gesto, visível ou invisível, e estremecem numa corrida que parece sem fim ou direção. Com pena, ficamos a vê-los afastarem-se. Talvez um dia, voltemos a merecer a confiança dos animais.

 

A tarde é tingida por um calor seco. Como uma nuvem de pó, ar espesso e amarelecido pelo sol. O som dos insetos que marcam o horizonte é agora diferente. As raízes dos embondeiros continuam a segurar a terra.

 

Quando seremos capazes de dar valor ao que é realmente importante? É fácil esquecê-la, subestimá-la, mas é sempre a terra que está lá, por baixo de tudo o que fomos capazes de construir, por baixo de todo o alcatrão ou cimento. Quando seremos capazes de ser consequentes com aquilo que é inegável? A terra não depende de nós, a água não depende de nós, a luz não depende de nós; somos nós que dependemos da terra, da água, da luz. Somos nós que dependemos da natureza.

 

O sol vermelho desce atrás das árvores. Os ramos são veias e artérias de encontro a um céu de cores que vão mudando muito devagar. Tudo parece acontecer a essa velocidade. Este silêncio está por baixo de todos os sons com que enchemos o planeta.

 

A Gorongosa é esperança. Envolvendo as comunidades locais, contribuindo para o seu desenvolvimento e restaurando a vida selvagem no parque, o projeto de recuperação da Gorongosa é esperança em Moçambique, mas não só; é esperança em África, mas não só; é esperança no mundo inteiro.

 

A noite chega com todas as estrelas. O céu imenso, polvilhado. Medimos o nosso tamanho a olhar para este céu.

 

A vida é muito maior do que apenas a nossa vida.

 

A terra prepara-se para um novo dia. Os animais sentem-na debaixo das patas, sabem que dependem dela para tudo. Da mesma maneira, sentem a noite. Sabem que têm de sobreviver-lhe, porque os animais não esqueceram. Os leões não querem guerra. Os gnus não querem guerra. Os javalis-africanos não querem guerra. Os pala-pala não querem guerra. Os elefantes não querem guerra. Os animais, todos eles, só querem viver. Os animais não esqueceram.

 

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publicado às 21:29

A maior herança

20.11.15

TEXTO DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

 

Discordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção.

 

As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros novos, cores novas, sons novos, estímulos que alargam a paleta daquilo com que contam a partir daí: na sua consciência, no modo como desenham o mundo e o avaliam.

 

As crianças não são testemunhas, são descobridores. Quando chegam a um lugar que desconhecem, não deixam que o peso do que sabem molde o que as espera. Levam os sentidos abertos, prontos a serem marcados para sempre.


Se perderem essa disponibilidade, nunca aprenderão a viajar e, em consequência, nunca serão capazes de desfrutar dessa vantagem. Quando falo de viajar, não me refiro apenas à oportunidade de ir muito longe, a outros países ou continentes, refiro-me à curiosidade pelo mundo, à capacidade de se surpreender com o que é diferente, de não temer essa diferença, de desejá-la.

 

Ainda no carrinho de bebé, procurei fazer várias viagens com os meus filhos, todas as que foram possíveis. Em tempos, os meus pais fizeram o mesmo comigo. Com os meus filhos, as pessoas que viajavam ao nosso lado no avião tiveram de ter paciência com o bebé a chorar às vezes. Com os meus pais, nunca hei de esquecer o cheiro do carro de madrugada. Num e noutro caso, havia o fascínio pelo caminho e a expetativa por tudo o que imaginávamos acerca do lugar para onde nos dirigíamos.

 

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos. Quando falo de viajar, refiro-me a esse prazer de olhar em volta e saber que estamos ali, sentirmo-nos. Mais do que uma promessa, viajar é a certeza de estar vivo. Por isso, aquilo que desejo aos meus filhos é cidades e pessoas, montanhas e horizonte, desejo-lhes Nova Iorque e a Amazónia, desejo-lhes São Petersburgo e o entardecer lento da savana africana, desejo-lhes sorrisos da Tailândia e sake de Quioto.

 

Ao mesmo tempo, desejo que nunca percam a capacidade de ir ali ao fundo e, da mesma maneira, surpreenderem-se com o que lá está, com a luz e a temperatura ligeiramente diferentes. Desejo que se apaixonem sempre, por tudo. E que sejam capazes de passar essa eletricidade aos seus filhos, meus netos por nascer, porque é ela que dá ânimo e sentido: combustível e estrutura da vida. Aquilo que desejo aos meus filhos é que a variedade de opções que o mundo lhes oferece nunca deixe de deslumbrá-los.

 

José Luís Peixoto

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publicado às 23:29

 

 

Um dia, vou cansar-me de querer conhecer o mundo. Nessa altura, talvez me pareça estranho que alguém saia de casa, deixe o morninho, para discutir preços com taxistas ou olhar para ementas de restaurantes onde não percebe uma única palavra.

 

Às vezes, parece-me que conheço demasiados caminhos. Para ir a certos lugares, não tenho de pensar. Entro no carro e a minha cabeça ocupa-se de qualquer assunto que, naquele momento me pareça importante. Conheço tão bem esses caminhos que quase me surpreendo quando chego ao destino. Às vezes, quero ir a lugares ligeiramente diferentes, distraio-me por um momento e, quando reparo, já estou a fazer esses caminhos de novo. O hábito enganou-me. Então, preciso de voltar atrás, raramente necessito de GPS para encontrar a direcção certa.

 

Viajar seja para onde for, querer conhecer o mundo, é acreditar que todas as ruas fazem parte de um labirinto mas que não é possível perdermo-nos nele. Está-se sempre em algum lugar. A rosa dos ventos pode ser colocada em qualquer sentido, continuará sempre a ser uma rosa dos ventos.

 

Na Tailândia, nenhuma comida tem o sabor das sopas da minha mãe. Na Amazónia, nenhuma paisagem se parece com os campos à volta da terra onde nasci. Nas ruas de Helsínquia, ninguém entende a língua em que penso e eu, estrangeiro, tenho dificuldade até de distinguir palavras na amálgama de sons que essas pessoas dizem quando vão, por exemplo, a conversar nos transportes públicos.

 

Um dia vou cansar-me dessa surpresa. Conheço bem o conforto do meu sofá, com mantas em fevereiro, onde poderia passar tardes inteiras a ver programas da televisão portuguesa, com anúncios portugueses, com as notícias portuguesas a começarem à hora certa: pip, pip, piiii. Sei bem o que é atender o telefonema de um amigo que me diz: vem cá. Sei bem o que é poder ir ter com ele naquele momento, estar ao lado dele depois de minutos. Também sei o que é sentir que os amigos deixaram de ligar. A pouco e pouco, convencem-se de que nunca estou, nunca posso, não vale a pena ligar, não vale a pena insistir.

 

Sim, um dia vou cansar-me de querer conhecer o mundo, mas hoje ainda não é esse dia. Sinto uma espécie de tontura só de começar a conceber todos os lugares onde posso ir. Tenho os sentidos ávidos por tudo aquilo que me espera. Não tenho qualquer receio de estar sozinho, sem mapa, no centro de Singapura, numa avenida de Caracas, diante de uma paisagem do Alasca. Anseio por esse momento.

 

Quero aterrar em todos os aeroportos do mundo, quero conversar por gestos com gente de todos os países, quero provar o sal de todos os oceanos, senti-lo a cristalizar-se na pele. É muito fácil que chegue um dia em que deixe de acreditar em tudo o que acredito agora. A vida é composta por materiais bastante mais transitórios do que estamos dispostos a admitir. Mas, até lá, sempre que esteja diante de uma ementa onde não perceba uma palavra, continuarei a fechar os olhos e a pedir a primeira coisa onde deixe cair o meu indicador.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Revista Volta ao Mundo (Abril 2014)

 

publicado às 10:54

O meu lugar

04.08.13

 

 

Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Posso estar a falar com a minha mãe, como há dois dias atrás, e ela diz-me: aquele sobreiro que fica entre o campo da bola e o Monte da Torre. E, entre tantos, eu sei exactamente qual o sobreiro a que se refere. Essa é a precisão com que sei o meu lugar. As ruas, calcetadas com paralelos, suportam o meu pensamento desde que nasci. Em gestos largos, os muros são caiados anualmente porque o branco precisa de renovação, a pureza é uma tarefa permanente.

 

Esses foram os anos em que viajou pelo mundo inteiro. Não sei que voz irá dizer esta frase sobre a minha vida neste tempo. O mais provável será ser eu próprio a dizê-la: Esses foram os anos em que viajei pelo mundo inteiro. Em qualquer dos casos, essa frase será dita quando já não aguentar o ritmo deste tempo, desta idade em que atravesso oceanos como se rodasse sobre mim próprio. Com os olhos cheios, quando paro de repente, o chão balança, a paisagem ondula. É então que o meu lugar, paz/certeza, me nivela.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Com tantas viagens, como é que consegue escrever? Ouço esta questão de muitas vozes, em muitas línguas, vinda de pessoas que nunca se conhecerão umas às outras. Dou qualquer resposta que me pareça satisfazê-las rapidamente. Às vezes, nem preciso usar palavras, basta sorrir. Quem faz perguntas não está sempre interessado em saber as respostas.

 

No tom prosaico dessas conversas, seria difícil explicar que eu tenho um lugar, está sempre comigo. É visível e invisível. Há oliveiras centenárias agarradas a essa terra. Há uma forma de respirar que só é possível sob essa aragem. Há fontes de bicas fartas, onde jorra tudo o que amo e me ama.

 

Quando era pequeno, os campos eram enormes. Cresci mais do que podia imaginar e, no entanto, os campos continuam enormes. Entre o que me puxa de um lado e de outro, há o meu lugar a manter-me firme, a fornecer-me equilíbrio infinito. A diferença de forças é incomparável. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Levo comigo uma origem e um destino. Levo comigo um sentido. Irreversível como um mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade. No meu lugar, os sinos do adro dão as horas.

 

É difícil vermo-nos a nós próprios, sei bem. Falta a perspectiva da distância, os espelhos distorcem, o rosto com que nos olham está sempre tingindo pela cor que trazem por dentro. É também por isso que me faz tanta falta o meu lugar. Sem ele, talvez acreditasse no primeiro reflexo que me apresentassem. Sem ele, talvez dependesse desses humores para imaginar quem sou.

 

Assim, estou preparado para atravessar o mundo inteiro. E, se mais mundo houver, mais mundo será tocado pela minha pele. Mi-nha pe-le, palavras pronunciadas sílaba a sílaba. E nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo. E nenhum detector de metais conseguirá identificar o tamanho e os ângulos do lugar que levo comigo: amor. Repito: amor.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Ainda rodo sobre mim próprio e, depois do mundo fosco, preciso de acreditar na nitidez que transporto, esse lugar meu, onde descanso e onde não sou um postal de tiragens sem fim, sempre deturpado um pouco mais, um pouco mais, milímetro a milímetro. Agradeço todo o contraste que consigo trazer para o caminho que construo. Não coloco limites nas temperaturas a que quero sujeitar os meus sentidos e nas lições que quero aprender. Mas felizmente, tenho o meu lugar. Acompanha-me como um deus.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Agosto, 2013)

 

publicado às 12:28



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