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Ressentimento

14.05.18

As raízes do ressentimento estão fixas na ideia de que não se foi valorizado. Não há palavras ou nitidez nessa crença, não há consciência, há apenas um peso no peito, como se os pulmões tivessem calcificado e custassem a encher, como se o oxigénio tivesse deixado de os saciar.

 

A injustiça original pode ter tido múltiplas formas, reais ou imaginárias, mas o sentimento que gerou foi sempre uma pergunta sem resposta: porque me ignoraram?

 

Essa dor é uma corrente de aço que liga o presente ao passado, o ressentimento é essa dor.

 

Tu és o símbolo de qualquer coisa que o magoou no passado. Ou porque há algo em ti que é comparável a essa mágoa antiga, ou porque há algo nessa mágoa antiga que é comparável a ti, um detalhe pode evocar o mundo inteiro.

 

Não vale a pena perderes tempo a identificar essa coincidência, é irrelevante. As relações não são da responsabilidade dos objetos relacionados, mas sim de quem as estabelece.
A tua presença é alheia ao seu ressentimento. Na verdade, não é de ti que fala quando diz o teu nome.

 

Por um lado, não te conhece; por outro lado, não é capaz de te ver. Quando olha para ti, apenas vê o passado, apenas sente aquela dor antiga, aquela chaga ainda aberta. Como em documentários na televisão ao domingo, é um animal ferido na savana, talvez um leão, é um animal zangado. Os seus argumentos são camuflagem para o mal‑estar.

 

Mas é sempre assim? Sim, é sempre assim. Quando se tenta eliminar o outro, quando não se lhe reconhece direito à existência, quando se tenta assassinar a sua reputação, é sempre assim. Mas não haverá casos em que o rancor é isento? Não, o rancor nunca é isento, é sempre pessoal e tendencioso, depende daquele que o projeta e não daquele a quem se dirige.

 

E sim, o teu cuidado é legítimo, a tua pena e preocupação são legítimas. Mas não podes caminhar com as pernas dos outros, gesticular com os seus braços, não podes falar com a sua voz. Terá de ser o próprio a drenar o veneno. Tu apenas podes viver a tua vida, o que não é pouco.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (8 de maio de 2018)

 

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publicado às 13:15

Aspas

14.04.18

 

Enquanto que "ler" pode ser uma mera distração, ler é um compromisso. "Ler" prescinde da presença que ler exige. "Ler" é muito parecido com ler mas, ao mesmo tempo, é bastante diferente. "Ler" é quase o oposto de ler.

 

"Ler" pode ser este encontro breve: passar os olhos por estas colunas, sobrevoá-las sem reparar mesmo em cada palavra, assimilar as primeiras linhas, apanhar pedaços aleatórios do meio, colheradas, fragmentos daqui e dali, e alcançar o fim na diagonal, para ver como acaba.

 

Ler é outra coisa. Quem lê já chegou onde queria ir, não tem pressa. Ler, parece-me, acontece com mais facilidade nas páginas de livros. Ler é uma tarefa de horas ou, melhor, de tempo que não pode realmente ser medido. Apesar da progressão nos capítulos, apesar do ponto final, ler é uma atividade sem fim. Suponho que ler seja comparável a navegar num oceano: horizonte em todas as direções.

 

Quem leva ideias preconcebidas e vai em busca das suas próprias justificações não lê, apenas "lê".

 

As palavras não resistem a ser repetidas com desdém. Se uma criança mal disposta as arranca do seu tom e as repete com troça, as palavras sofrem como qualquer vítima de bullying. Da mesma forma, nenhum texto resiste a uma leitura com desdém. Quem lê não impõe uma voz às palavras, prefere escutá-las.

 

Ler requer humildade, generosidade e confiança.

 

Para ler faz falta uma certa paz e, ao mesmo tempo, uma certa inquietação. Esse é um equilíbrio rigoroso, uma forma de respirar que não se ensina e que, no entanto, se pode aprender.

 

Há momentos em que ler é vozes em uníssono, palavras sobrepostas, dentro e fora de nós: verdades que conhecemos de dentro a chegarem de fora e a falarem-nos, recordações vivas de um passado que está a acontecer pela primeira vez naquele momento. Como uma organização súbita, o mundo unificado, um sentido integral, a coerência plena, um génesis. Não existia, passou a existir. Da escuridão absoluta à luz também absoluta. E, no entanto, tudo simples, natural.

 

Quem lê não faz exigências, apenas quer estar ali.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (6 de abril de 2018)

 

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publicado às 09:16

 

 

Os elitistas acham sempre que fazem parte da elite. A pirâmide, no entanto, tem uma imensidão de vértices, é provável até que não se trate realmente de uma pirâmide. Por isso, não faltam perspetivas para que uns e outros se considerem no topo.

 

Há o elitismo social, de classe, relacionado ou não com o elitismo económico; há o elitismo cultural, relacionado ou não com o elitismo académico; há o elitismo moral, relacionado ou não com o elitismo religioso; há uma quantidade inúmera de elitismos, derivações de derivações, ramificações, tipos específicos e especializados, insignificantes para quem está fora, vitais para quem está dentro.

 

Em qualquer dos casos, o elitismo é sempre a defesa da superioridade de uns em relação aos outros, é sempre a afirmação da diferença e da separação. As suas razões são o núcleo daquilo que coloca gente contra gente, que justifica guerras. O elitismo garante que uns são mais capazes do que outros, ou que uns têm mais direito do que outros.

 

Mesmo quando se dedica a áreas extravagantes, a mundos microscópicos, o elitismo é sempre uma atitude política. A elasticidade do seu metabolismo permite-lhe sobrevivência em todas as áreas do espetro político, sem exceções. Consegue adaptar-se a qualquer habitat argumentativo. Com mais regularidade do que seria de supor, há apologias do elitismo que, camufladas ou explícitas, são feitas no próprio instante em que se afirmam contra ele. São a elite dos que se afirmam contra a elite.

 

Os defensores das castas dizem que é assim desde sempre, dizem que essa é a ordem natural, moldam a história e a ciência de acordo com os resultados lógicos que pretendem alcançar. Não é difícil fazê-lo, os argumentos são uma massa mais moldável do que o barro.

 

Depois, para lá disso, muito longe e logo ali, há os seres humanos, que nascem, alimentam expetativas e morrem. Quando seremos capazes de olhar para os outros como olhamos para nós próprios? Quando seremos capazes de olhar para nós próprios como olhamos para os outros?

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (Fevereiro 2017)

 

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publicado às 13:12

O meu pai segura um doce de ovos moles entre o polegar e o indicador, segura o objecto mais delicado do mundo. Tem a forma de um búzio. Segura-o exatamente pelo vértice, é uma forma branca e elegante. Olha esse pequeno búzio como se o analisasse, não o perde de vista, segue-o ao aproximá-lo da boca e até mordê-lo com a ponta dos dentes: dentadinha. Neste momento, o meu pai é homem, mas também é menino; é forte, mas também é frágil. Não se apercebe da ternura que o envolve.

 

A minha mãe guarda o doce que lhe calhou, é uma pequena concha. Procura um lenço no interior da mala, a minha mãe tem sempre um lenço lavado e passado a ferro. Mais tarde, irá oferecer-me este doce de ovos moles, talvez depois de jantar, talvez um pouco esmagado pelas horas dentro da mala, talvez com alguma penugem do lenço. A minha mãe está a guardar o doce para mim. Ouço frases breves na voz da minha irmã, dá-me instruções acerca de como morder o doce devagar, como saboreá-lo. Ao mesmo tempo, sem palavras, ensina-me também a fechar os olhos para sentir o sabor a avançar pelo interior da boca, a ser um lugar, como um terreno de açúcar que se expande pelo negro que possuímos por dentro, que o ilumina de certo modo, que lhe dá forma e superfície. Eu tenho o direito de ficar com o doce maior. Quero ser adolescente, mas não prescindo dos meus privilégios de criança. Tem a forma de um peixe com escamas ténues, como uma sardinha com cara de pessoa. Seguro-lhe pelo rabo e, antes ou depois de trincá-lo, fixo este momento.

 

Estamos sentados na carrinha estacionada. Diante da ria, um pouco afastados do centro de Aveiro. No lugar do condutor, com o volante diante da barriga, o meu pai; a seu lado, a minha mãe; no banco de trás, a minha irmã e eu. Neste momento, a nossa carrinha é a nossa casa.

 

Escrevo estas palavras escolhidas, estes substantivos, estes adjetivos, declino estes verbos no presente e, ao fazê-lo, é como se estivesse lá, ainda ao lado da minha irmã, na presença do meu pai e da minha mãe. Como são fortes as palavras, carregam todo o peso da memória. Sustentam-na sem aparentar qualquer esforço.

 

Há poucas semanas, estive em Aveiro. Eu era um homem de quarenta e três anos. Eu era um homem sozinho, de quarenta e três anos. Tive algum tempo para passear, não muito. Inclinado sobre as grades de uma ponte, assisti à passagem de barcos cheios de turistas ao longo da ria. Se existissem barcos desses quando estivemos lá, teríamos andado. Agora, essa seria uma lembrança boa.

 

Em silêncio, contemplando a lonjura através do para-brisas, o meu pai dá mais uma dentadinha no doce de ovos moles. Esse búzio tem um interior de amarelo vivo, como se fosse feito de ouro húmido. Este é o poder dos verbos conjugados no presente. A minha irmã também desfruta do seu doce de ovos moles. A minha mãe, sem saber, desfruta da segurança deste instante. Em silêncio, no interior de mim, aqui e lá, digo-lhes: aproveitem este momento, pai, mãe, mana. Estamos juntos neste tempo que nos inunda e nos preenche. O tempo é a vida.

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Janeiro, 2018)

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publicado às 15:04

 

 

As nossas vozes misturavam-se com o rumor da água a correr, água atravessada por raios bem desenhados de claridade, som muito puro, quase silêncio, que restolhava em todas as pedras polidas ao longo do seu caminho. As sombras mais suaves das árvores eram levadas por essa corrente branda e também elas se misturavam com o tamanho daquelas tardes de verão. Eram tardes que, parecia-nos, jamais encontrariam o seu fim.

 

Tínhamos chegado ali de bicicleta. Primeiro, a pedalarmos pelas ruas pavimentadas da nossa aldeia e, depois, por estradas que só nós conhecíamos, torrões de terra a desfazerem-se sob os pneus. De um lado e de outro, estendiam-se paisagens cobertas por mantos de cigarras que, àquela hora, eram incandescentes, incendiadas pelo sol. Por fim, à beira da ribeira, enquanto despíamos a camisola, era esse calor e essa sede que levávamos na pele.

 

Entrávamos devagar na água, dissolvíamo-nos nela. Assentávamos os pés sobre seixos arredondados por muitos verões, por muitas férias grandes, por camadas de limos, como veludo. Em níveis, passo a passo, saciávamos o corpo: até aos joelhos, até à cintura, até aos ombros e mergulhávamos a cabeça. A água era leve, os nossos braços atravessavam essa matéria fina e translúcida, os nossos movimentos abrandavam apenas o suficiente para serem justos. Se nos deixávamos cair para trás, deitados na água, a flutuarmos como folhas de árvores inclinadas sobre a ribeira, tínhamos o céu inteiro diante de nós: uma cor única e absoluta, uma certeza tranquilizante.

 

Então, tínhamos a idade de nos deslumbrar com as coisas mais singelas. Se a nossa vida fosse um rio, estávamos muito mais perto da nascente, não éramos ainda capazes de imaginar a foz e, talvez por isso, acordávamos em manhãs inundadas por um presente luminoso, tempo de possibilidades infinitas. Sabíamos que tudo podia acontecer e, com pouco esforço, qualquer coisa ínfima, uma pedrinha atirada às águas da ribeira, podia transformar-se em qualquer coisa grandiosa, todos os nossos sonhos realizados. Essa era a força da nossa imaginação.

 

Era assim e, no entanto, hoje, com tudo o que mudou, continua a ser exatamente assim. Chegamos com os nossos filhos, são pouco mais novos do que nós naquele tempo. Olhamos para eles e conseguimos encontrar-lhes muitas diferenças, o cuidado com que pousam os pés descalços sobre a terra e, depois, sobre os seixos que ainda cobrem a entrada da ribeira, mas há um brilho na pele, uma ilusão no olhar que é a mesma. Os nossos filhos, passados todos estes anos, levam no olhar uma ilusão igual à que levávamos, pouco mais velhos do que eles. Talvez essa ilusão, ou esse brilho, seja um reflexo das águas desta ribeira, talvez a luz do verão se reflita assim nestas águas límpidas. Nesse caso, pode ser que também nós ainda levemos esse brilho, ou essa ilusão, no olhar. Talvez o tempo não tenha passado, o ínfimo pode ainda transformar-se em grandioso, os nossos sonhos estão lá ao fundo, vão realizar-se todos antes de terminar esta tarde imensa de verão.

 

José Luís Peixoto, in revista Up (Agosto 2016)

 

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publicado às 19:51

 

 

O algodão da roupa engrossou, o sol deixou-o mais rijo. Raspa no sal que ainda trazemos colado à pele e, mesmo assim, não é demasiado áspero. É algodão a ganhar um ruço de estio, deste tempo, próprio destas horas luminosas, incandescentes. Levamos ainda a cor do mar, o vítreo, os pontos de sol no relevo das ondas, levamos a Serra da Arrábida nas costas, todo o seu tamanho, como se possuíssemos uma sombra enorme. Temos grãos de areia presos aos tornozelos, são uma segunda pele, perdemo-la aos poucos.

 

O meu pai estacionou a carrinha junto ao Estádio do Bonfim. Reconheço as suas paredes verdes e brancas de relatos na telefonia do barbeiro.

 

A minha irmã e a minha mãe andam com segredos. Por isso, caminho ao lado do meu pai, à sua velocidade. Ele não se importa com esses sussurros, não sente curiosidade. Sou capaz de imitá-lo. Avançamos solenes pelas ruas de Setúbal, levamos o Portinho da Arrábida na pele, nos olhos, na respiração.

 

O meu pai sabe o caminho. Não me admiro. Conto com as suas certezas em todos os momentos. Cruzamo-nos com pessoas que não vão de chinelos ou de sandálias, não vão de calções, não usam fato de banho por baixo das camisolas, e chegamos ao restaurante.

 

A toalha de papel é lisa na ponta dos dedos e na palma da mão. Os talheres estão certos pelos pratos. Como se lesse uma epopeia, o meu pai lê as longas páginas plastificadas da ementa. A minha irmã e a minha mãe aproveitam para dizer alguma coisa urgente com os olhos. Não as entendo, avalio a qualidade da loiça, viro o prato à minha frente.

 

O restaurante está cheio de vozes misturadas com a televisão: janela de cores demasiado garridas. O empregado desliza entre as mesas, há uma espécie de pânico na sua pressa, parece prever uma catástrofe, a sua pressa é a única forma de evitá-la. No espaço apertado daquela sala, contorna olhares que, às vezes, conseguem agarrá-lo por instantes, contorna vozes e gargalhadas da mesa sete, repete os pratos do dia, repete a lista de sobremesas, enfia a cabeça no buraco da cozinha e grita lá para dentro.

 

Já escolheu? O meu pai pede o que já tínhamos decidido no carro. Saímos da praia com essa ideia. O empregado afasta-se sem precisar de anotar o pedido, não esquece. Deixou um pires de azeitonas e caixinhas de manteiga que, de repente, enchem a mesa. Sem palavras, o meu pai confirma que hoje posso. Parto um pedaço de pão, cheira a pão. Abro a manteiga com a ponta dos dedos, tenho uma faca. Caixinhas de manteiga deste tamanho também são uma brincadeira.

 

Olhamos para as pessoas das outras mesas, identificamos diferenças em relação a nós. A minha mãe e o meu pai conversam. Os segredos terminaram. Eu apenas sou capaz de olhar para a bebida, quero bebê-la, tenho de esperar pela comida.

 

Por fim, o empregado chega triunfante. Com as duas mãos, pousa a terrina no centro da mesa, liberta uma nuvem de vapor. Antes de se retirar, avalia a nossa felicidade.

 

A minha mãe começa a servir caldeirada de peixe em cada um dos nossos pratos. Hei de lembrar-me deste cheiro por muitos anos, hei de tentar recriar este momento muitas vezes. Mas isso será depois, falta muito para chegar esse tempo. Agora, vou comer.

 

José Luís Peixoto, in revista Up (Julho 2017)

 

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publicado às 11:42

Presença

12.07.17

 

 

Apenas sei que regressei a casa quando te pego ao colo. Tens muito para dizer-me e, por isso, os nossos olhos não se separam. Podia ficar aqui para sempre, há um mundo completo no interior dos teus olhos. Avanço nele e só encontro pureza. Comparo essa paisagem com os lugares por onde andei e, por momentos, acredito que nunca mais quero sair daqui. Aspiro ao que vejo nos teus olhos, quero essa candura transparente para os meus gestos e para as minhas intenções. Aprendo tanto contigo.

 

Respiramos ao mesmo tempo. Agora, por fim, estamos juntos no mesmo instante, habitamo-lo. Passo as mãos pela tua cabeça, pescoço, costas, as minhas mãos são enormes no tamanho do teu corpo. Quando te habituas a esse ritmo e a esse calor, bocejas longamente. És tu, é a ternura, sorrio.

 

Sinto o conforto do teu peso. Nele, há uma segurança profunda, absoluta.

 

Nunca perguntas porque vou embora, sou eu que coloco a questão a mim próprio. Entre mistérios privados, secretos, há um lugar onde permanece essa interrogação sem resposta, exala uma espécie de força magnética, invisível e, no entanto, capaz de exercer força, mover objetos. Tento fixá-la como faço com os teus olhos, mas parece-me que lhe falta a tua clareza, que me falta a tua sinceridade.

 

Às vezes, sem saber o que quero, tenho a certeza de como posso alcançá-lo. Então, os movimentos são mais rápidos do que o pensamento, há uma vontade maior do que a minha a dirigir a minha vontade. Há uma voz distante que me chama, fico cego.

 

Agora, abraço-te. Em ti, protejo-me do mundo e de mim próprio. Esperaste-me atrás da porta, não deixaste que este tempo perturbasse o nosso apego. Levei-te comigo em todos os momentos, foste ao lado do meu nome, do meu silêncio, do pouco que realmente possuo.

 

Estás ao meu colo, respiras e, ao mesmo tempo, sou eu que estou ao teu colo, respiro. Há um entendimento que nunca perderemos, é maior do que as nossas vidas, é maior do que aquilo que somos capazes de ser. Eu sou um homem de 42 anos, tu és uma cadelinha de 11 anos, mas não é isso que importa.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (julho 2017)

 

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publicado às 11:42

Estar de bem

13.06.17

         Temos mesmo de odiar aqueles com quem não concordamos?

       Os seus gestos e palavras incomodam-nos. Às vezes, é a sua própria presença que nos incomoda. Aparecem na televisão e mudamos de canal. Se insistirem nos comentários, bloqueamo-los no facebook. Pergunto: se tivéssemos todo o poder, se não fôssemos julgados por ninguém, se bastasse estalar os dedos para que se cumprisse a nossa vontade, o que lhes faríamos?

       A resposta a esta pergunta diz mais sobre nós do que sobre eles. É fundamental possuirmos uma ideia acerca de como gostaríamos que o mundo fosse, uma direção; mas, parece-me, também importa que, nesse ideal, encontremos um espaço para os que discordam dele. Uma utopia em que todos acreditem no mesmo é fácil de construir.

       Nós existimos com os outros e, muitas vezes, por causa dos outros. A existência dos outros reflete a nossa, alarga-a e, claro, o mesmo acontece na direção oposta. Nós e os outros somos uma espécie de espelho. Mas há uma diferença fundamental: a nossa sensibilidade é-nos intrínseca, reconhecermos a sensibilidade dos outros requer um esforço intelectual de empatia.

       Criticar os outros, agindo da mesma maneira, é incoerente, não faz sentido, a não ser que estejamos convencidos de que o nosso principal valor é sermos nós.

       Pode acontecer que não estejamos a considerar os outros em todas as suas dimensões. Se aceitamos que são seres humanos, temos de reconhecer-lhes humanidade. Há aquilo em que não estamos de acordo e que pode magoar-nos se for importante, se for violento, mas é muito provável que exista uma enorme quantidade de assuntos em que pensamos exatamente a mesma coisa. Estar disponível para essa procura é querer saber mais, não ter medo de saber mais.

       Eles discordam de nós, eles decidiram dedicar a sua vida a combater aquilo que achamos certo. Esse ponto de vista custa-nos porque, afinal, nós prezamos a opinião deles. Eles têm importância para nós. Admiti-lo não é um sinal da nossa fraqueza, é um sinal da nossa força.

       Temos mesmo de odiar aqueles com quem não concordamos?

       Claro que não, apenas temos de odiar o ódio.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (11 de junho de 2017)

 

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publicado às 21:56

Respeito

05.05.17

Há pouco mais de um ano, ninguém me fazia perguntas sobre Fátima e, no entanto, eu passava os dias a pensar em Fátima. Nessa época, escrevia um livro a que chamei "Em Teu Ventre" e que trata esse tema. Só tinha contado à minha família e, considerando os meus livros anteriores, poucos leitores suspeitavam que tivesse escolhido esse assunto.

 

De certo modo, escrever um livro é sempre um segredo. Enquanto as palavras ainda não estão no papel, já com o seu formato definitivo, existem apenas para quem as escreve. Nesse momento, são uma espécie de visão. Então, quando essas palavras são publicadas, o segredo é libertado no mundo: mistura-se com o olhar dos outros. Por consequência, muda a forma como os outros veem e, também, a forma como os outros nos veem.

 

Foi justamente nos olhares dos outros que encontrei as primeiras questões. Ainda sem terem lido uma página, quando se mencionava o tema "Fátima", todas as perguntas eram formas explícitas ou subliminares de me colocarem uma única pergunta: acredita?

 

Como sempre acontece, fui respondendo na medida das minha possibilidades. Em nenhuma ocasião respondi sim ou não. Por um lado, não creio que a resposta a essa pergunta seja apenas sim ou apenas não, a não ser que se simplifiquem as questões até ao seu elemento mais básico, tão básico que já não é sequer representativo do que se está a falar. Por outro lado, porque a minha intenção primeira, uma das que me levou à escrita do livro, foi justamente encontrar uma maneira de falar de Fátima que não passasse por esse separar de águas, esse muro divisor: acredita/não acredita.

 

Nem todas as pessoas que afirmam acreditar em algo comum o fazem da mesma forma. Acreditar não é preto e branco. Também me parece que nem todas as pessoas são cépticas da mesma forma. Há inúmeras gradações e particularidades no que toca à crença e/ou à fé. Não existe um interruptor para a fé ou o cepticismo. Até a luz eléctrica, que utiliza interruptores, não é igual em todas as circunstâncias, depende da lâmpada, da intensidade da corrente e de uma série de outros elementos que os eletricistas saberão enumerar. Até a escuridão, estou convencido, não é sempre igual.

 

Assim, depois de tentar superar a dificuldade de escrever um livro que tratasse a questão de Fátima de forma direta, concreta, honesta e que recusasse essa segregação prévia, fiz uma sequência de apresentações em todo o país. Ao vivo, diante de públicos que não estavam claramente de um ou de outro lado dessa linha, assisti ao jeito como a conversa custava a iniciar-se, o desconforto que as pessoas começavam por ter e, depois, à medida que eu continuava a falar, assisti também à forma como essas mesmas pessoas se iam libertando e, a pouco e pouco, intervindo sobre um tema que, afinal, no nosso país, toda a gente conhece e tem alguma coisa a dizer.

 

Fátima é um tema multidimensional. Ao longo destes cem anos, assumiu uma enorme importância política e social. Em grande medida, pode dizer-se que houve uma certa sensibilidade acerca deste tema que foi paralela às próprias alterações políticas e sociais do país. Por tudo o que dizem sobre nós, essas são questões de grande interesse, que merecem ser levantadas, observadas e reflectidas.

 

Já no que toca à sua dimensão religiosa, Fátima é um assunto que está na esfera da sensibilidade íntima de cada um. A liberdade religiosa é uma conquista civilizacional. Não devemos estar dispostos a abdicar dela em nenhuma circunstância.

 

Nesse sentido, é fundamental que crentes e cépticos se saibam respeitar entre si, só assim poderá existir um diálogo edificante. Não vejo razões para duvidar que uns possam aprender algo com os outros. Se não estivermos de ouvidos fechados, de olhos fechados, podemos sempre aprender algo com os outros, podemos sempre descobrir algo novo. E os outros, claro, não são uma abstração. Os outros são aqueles que têm opiniões realmente diferentes das nossas.

 

Assim, não vou aqui afirmar a minha crença ou a falta dela em relação às aparições de Fátima. Não sinto necessidade de o fazer e, ao mesmo tempo, não quero tingir as leituras que possam ser feitas do meu livro com as cores desses preconceitos. Tenho a ambição de que o meu livro não seja apenas um afago tranquilizante que estes ou aqueles usam para se autojustificar. Em vez disso, desejo que seja um confronto com uma perspetiva diferente, nova, de algo que talvez já estivesse cristalizado, que já não se visse realmente.

 

José Luís Peixoto, in Fátima XXI (Outubro de 2016)

 

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publicado às 00:27

Faltam-me palavras para explicar a maneira como a lonjura cabe inteira no meu olhar. Possuo longos braços invisíveis. Esta distância amplia-me. Num instante, conheço as brisas desde sempre, temos a mesma idade, tocamo-nos com a mesma pele. Algo de mim sobrevoa estes telhados, ruas, praças, copas de árvores. Um sobressalto acerta-me no fôlego que, de repente, também é imenso. No topo do castelo, debaixo de arcadas góticas, inspiro toda a cidade de Leiria, sinto-a no interior dos pulmões, fresca a esta hora, e expiro-a, sopro-a de volta ao seu lugar justo.

 

Tenho o rabo gelado. Estou sentado num banco de pedra, condensação mineral das sombras de séculos. As vozes da minha mãe, admirada, e da minha irmã, explicativa, chegam-me das costas, embaraçam-se uma na outra. Não se estendem até lá a baixo, ficam aqui, presas às suas teimas, trazem-me de volta para aqui. O meu pai tem as mãos nos bolsos, olha para longe.

 

Entrámos no castelo de Leiria sem dúvidas. A altura das muralhas incentivou-nos, as plantas a crescerem nos interstícios das pedras também. A minha irmã era a primeira a subir os degraus, não sei o que a puxava. Eu seguia-a sob a gentileza das árvores e do céu. Este é um verão gentil, abrandou por nós, atenuou o seu ímpeto para nos permitir esta tarde. Os meus pais vinham atrás, sem pressa, a conversar. Pensei em quantos teriam subido aqueles degraus, sem conseguirem imaginar que repetiríamos os seus passos, agora com sapatilhas, agora com a máquina fotográfica que o meu pai prende com uma correia ao pulso. Estas pedras são feitas de muito tempo.

 

Procuro a carrinha na paisagem. Deixámo-la estacionada junto de um posto da polícia, ideia da minha mãe. Não a encontro. A minha irmã aponta para uma área, como se a própria cidade fosse um mapa aberto à nossa frente. O meu pai discorda, aponta para o centro, a praça principal, aponta para o rio Lis e, a partir dessas referências, calcula mais ou menos a localização da carrinha.

 

Anoiteceu. Estou sentado no banco da frente da carrinha, ouço uma rádio de Leiria, música americana. Lá atrás, já acabaram de montar a cama, colchões de espuma, e já estão todos deitados. O meu pai conversa com a minha irmã acerca dos caminhos da cidade, refere-se ao rio Lis. O meu pai não perde uma oportunidade de dizer esse nome, rio Lis, adora. A minha mãe chama-me. De cuecas e camisola de algodão, estou pronto para dormir. Abro as cortinas que dividem a carrinha e passo para trás.

 

Tenho de ter cuidado para não pisá-los. De um lado, o meu pai; ao meio, a minha mãe; do outro lado, a minha irmã. Deito-me aos seus pés, atravessado. Sou o único que cabe nessa posição. Entro no saco-cama. Quase a sussurrar, a minha mãe termina qualquer ideia e, a seguir, diz: vá, agora vamos dormir. Sinto-os a acomodarem-se e, depois, a repousarem a respiração. Há um instante que permanece. Abro os olhos para vê-lo. As cortinas das janelas estão fechadas, filtram a luz dos candeeiros públicos, transformam-na em penumbra. Passam carros lá fora, os seus faróis dançam no tecto da carrinha.

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP (maio, 2017)

 

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publicado às 11:02



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