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Náufrago

18.05.19

Corro à máxima velocidade que consigo, levo alguma coisa a apertar-me o peito. A meio da corrida, chego à surpreendente conclusão de que é o peito que se aperta a si próprio. Corro em direção a algo que me parece imprescindível. Não sei há quanto tempo persigo essa miragem. Questiono-a por um instante, agora.

 

E, de repente, é de novo o fim do dia. Terminou o prazo. De novo, o dia não foi suficiente, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. E outra vez o fim do dia, e outra vez, outra, outra, de repente, exatamente o mesmo instante, a repetição do mesmo fim de dia, a mesma derrota. De manhã à noite: a pressa de fazer qualquer tarefa para fazer a tarefa seguinte. Todas as horas de um dia inteiro: a calcular o tempo que demoro até um lugar de onde quero sair o mais rapidamente possível. Ainda aqui e já a pensar no tempo que demoro a ir lá e a regressar aqui.

 

E, de repente, é de novo o fim do dia. É terça-feira, é quarta-feira, é quinta, sexta; de repente, é de novo sexta-feira, terminou mais uma semana, estes dias não foram suficientes, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. Olho para a semana que passou e não consigo entender essa velocidade. Estou rodeado pelas ruínas do que não consegui fazer, cobrem a memória vaga de tudo o que me ocupou o tempo. E, agora, neste fim, parece-me que apenas fiz o que não queria.

 

E, de repente, é de novo dia 30. A repetição, cansativa e previsível: dia 27, dia 28, 29 e 30, é de novo dia 30, terminou mais um mês, abril, terminou abril. Estas semanas e cada um destes dias não foram suficientes, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. Ao longo deste mês que passou, como uma paisagem que ainda olho, mas a que não consigo chegar quando estendo o braço, estão os fantasmas do que adiei. Aqui, ao terminar este dia, semana, mês, parece-me que talvez adie essas possibilidades para sempre.

 

Agora é um instante. Agora é um breve intervalo. Amanhã, recomeça o tempo. Tenho hora para acordar, tenho hora e lugar para estar vestido, desperto, bem-falante, tenho uma lista de tarefas a cumprir. Quanto mais depressa terminar a primeira, mais cedo poderei começar a segunda e, assim, talvez, chegar à última. Essa é a meta, o horizonte que distingo lá longe, no interior das minhas próprias ideias. Avanço na direção daquilo que consigo imaginar: os pontos da minha lista cumpridos, um a um. E, no entanto, inesperadamente, há alguém que se atrasa, há alguma coisa que demora mais do que previa: o trânsito, a chuva, cálculos inocentes. E, no entanto, de repente, é de novo o fim do dia, é de novo sexta-feira, terminou a semana, é de novo dia 30, terminou o mês. O tempo não foi suficiente, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente.

 

Agora, fecho os olhos, inspiro longamente. Agora, o tempo parece uma matéria informe, nada o pode conter, entra por todos os lados. Este é um navio a naufragar, o tempo é a água, entra pelas frinchas mais finas, o tempo é o oceano. Estou no último pedaço à tona e, em volta, apenas oceano noturno, apenas tempo. Em breve, irá submergir-me.

 

José Luís Peixoto, in revista Espiral do Tempo

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