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TEXTO E FOTOGRAFIAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

 

De olhos fechados, distingo devagar cada um dos sons que me rodeiam.

 

Os tambores lá ao fundo. São grupos de músicos berberes. Sentam-se num círculo e, cercados por um muro de pessoas, tocam sem parar. Cada batida na pele desses tambores atravessa a praça inteira e chega até aqui. Ao longo desse caminho, atravessa o rugido de todas as vozes. São vozes de uma multidão de indivíduos, homens, mulheres, crianças, vozes mais próximas e mais distantes, são vozes misturadas, vozes que serpenteiam como o som das cornetas, também lá ao fundo. As cornetas dos encantadores de serpentes possuem uma melodia estridente que parece infinita. Segue sempre em alguma direcção, decidida, mas nunca chega ao seu destino. Essa melodia evolui como uma sirene contínua, constante, mas sempre diferente, em evolução. Mais perto, o zumbido esforçado das motorizadas, a hesitarem um caminho de curvas entre as pessoas que cruzam a estrada em todos os sentidos, gente carregada de sacos e de vozes, mais vozes ainda. E perto, aqui mesmo, à distância da minha mão, o som de loiça a tocar a mesa, o som de uma colher a tilintar no pires.

 

Abro os olhos. O empregado chegou com o chá de menta e está parado à minha frente. O seu sorriso é brando. Tento responder-lhe com um sorriso igual. Afasta-se satisfeito e volto a sentir o sol na pele do rosto. Não preciso de fechar os olhos para receber esse conforto. O dia quer terminar e tem preparada a luz perfeita, redentora. O chá não está demasiado quente, está espesso e perfumado.

 

A praça Jemaa El Fna muda com as horas do dia. Durante a tarde, cada laranja dos vendedores de sumo é um sol. Sentadas em bancos baixos, há mulheres a segurarem seringas cheias de henna. Por pouco dinheiro, desenham cornucópias cheias de detalhe nas costas das mãos de turistas, mulheres ou raparigas. Muito perto, há homens a segurarem trelas, a passearem macacos vestidos com roupa de pequenas pessoas peludas. Também esses distinguem turistas entre a multidão. Os macacos trepam-lhes para os ombros e quase de certeza que os turistas hão-de querer mostrar essa fotografia lá para onde regressarem. Uma moeda de dez dirhans não é pedir muito pela garantia dessa sensação.

 

Ninguém pode parar o tempo. Durante o fim longo da tarde, há aqueles que ainda olham para o passado. Como os donos dos macacos, os encantadores de serpentes têm pressa de aproveitar a última luz, incientivo a que os turistas tirem mais uma fotografia. Envoltos pela insistência das tais cornetas, há rapazes que querem convencer turistas a posarem com serpentes enroladas nos braços. Mas o tempo continua, ninguém pode pará-lo. O sol desceu já por detrás do minarete da mesquita de Koutoubia. Os raios de luz que o circundam tornam-no incandescente, como Alá. E, de repente, esse nome divino, feito com uma vogal que enche a boca e pode ser suspensa, é gritado desde várias direcções, estendendo-se a partir dos altifalantes no ponto mais alto das mesquitas, como se cobrisse a cidade inteira. Entre a urgência daqueles que atravessam a praça, é quase certo que alguns se dirigem para essas mesquitas onde os chamam. Mas a praça, como o tempo, continua sempre. Homens de bigode e camisas rasgadas terminam de montar todos os ferros das barracas de comida. Juntam essas peças todos os dias, organizam esse barulho de ferro contra ferro. Agora, falta apenas um fio muito fino para que chegue a noite. Debaixo das barracas quase montadas, já ardem as brasas onde serão assadas as espetadas de carne moída.

 

Não muito longe, à volta de um círculo no chão, formado por garrafas de coca-cola, há rapazes e crianças que seguram canas de pesca com argolas na ponta de um longo cordel. Se conseguirem enfiá-las no gargalo, ganham a garrafa. Ao lado, homens vestidos de mulher, com o rosto tapado como muitas mulheres, dançam exageradamente. Entre os vários grupos, passam os vendedores de água, equilibram um exuberante chapéu garrido, com roupas também garridas, com medalhas penduradas e copos de cobre. Apontam para os turistas e fazem o gesto de tirar uma fotografia. O som dos sinos que agitam encontra um lugar entre todos os outros sons. Depois de seguir os vendedores de água com olhar durante minutos, parece-me que são um bom símbolo de muito do que se vê na praça. Estão vestidos de forma tão folclórica que parece artificial, a insistência com que chamam os turistas também não lhes acrescenta genuinidade. No entanto, uma mulher e uma criança aproximam-se deles. O sino deixa de tocar. O vendedor enche um dos copos de cobre com água retirada do seu enorme cantil de cabedal. Enquanto a criança bebe, o homem e a mulher esperam. A criança bebe devagar, dentro de um silêncio pequeno, difícil de distinguir. Quando termina, a mulher dá uma moeda ao vendedor, que volta a tocar o sino e a meter-se com turistas. Ou seja, o vendedor de água vende efectivamente água, sacia mesmo a sede a alguém, mas se puder lucrar com o turismo, aproveita. É assim com quase tudo o que acontece na praça. Há uma multidão de marroquinos a assistirem aos músicos berberes, batem palmas, a música entra-lhes mesmo dentro do seu ritmo pessoal. Mas chega um turista e há um músico que imediatamente lhe estende o chapéu, a pedir moedas: dirhans, dirhans, dirhans.

 

Anoitece sobre a praça, sobre toda essa gente. As luzes das barracas onde se vende tigelas de caracóis estão acesas desde o lusco-fusco. Em Marraquexe, é na praça Jemaa El Fna que tudo começa e, não há qualquer dúvida, é também na praça Jemaa El Fna que tudo termina, oxalá.

 

Cada vez que se fala de qualquer coisa no futuro, Mohammed diz sempre: incha' Allah. Significa "Deus queira" em árabe. Quem usa essa expressão está a afirmar-se nas mãos de Deus. Essa é a origem etimológica da palavra portuguesa "oxalá". Enquanto avançamos pelas ruas do souk, pergunto a Mohammed se nos dirigimos para a Madraça Ben Youseff. Ele, como seria de esperar, responde: Incha' Allah. Oxalá mesmo, penso eu. Se me perder dele, não vai ser fácil encontrar o caminho de volta para a praça.

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Há de tudo, pelo menos é o que parece. Todas as portas de todas as casas estão rodeadas por artigos à venda. Quando se olha para algo, o vendedor chega imediatamente. Na maioria das vezes, não é preciso olhar, o vendedor, poliglota, começa logo a perguntar qual a melhor língua para conversarmos: Italiano? Español? Français? English? Entre tudo o que está em exposição, nota-se que, às vezes, há uma concentração maior de determinado material ou ofício. Se houver muitos homens sentados a soldarem ou a martelarem chapas de metal, por exemplo, chegámos ao Souk do Ferro. Esse é um bom lugar para procurar candeeiros, mesas ou objectos que, se apanharem chuva, hão-de enferrujar, oxalá. Se houver homens rodeados de serradura, a girarem com as mãos e com os pés um aparelho de correias, no qual lâminas afiadas moldam ripas, chegámos ao Souk da Madeira. Também há o Souk dos Tapetes, claro, ou o Souk dos Babouches, onde se pode encontrar aquele sapato bicudo, típico dos países árabes, com toda a espécie de padrões, com o emblema de quase todas as equipas de futebol. Para além destes e de muitos mais, o Souk dos Tintureiros é onde as cores são capazes de ser ainda mais vivas, enchem os olhos. Pouco depois, não são necessárias indicações para chegar ao Souk dos Curtidores, descobre-se pelo cheiro.

 

De manhã, os raios de sol atravessam os telhados de palhinha que cobrem as ruas destes mercados. São raios oblíquos, bem desenhados que tocam os objectos, os olhares e o movimento de todas as coisas. Belek, belek, grita um homem que passa a empurrar um atrelado ao longo da rua estreita, pode levar legumes, panos, loiça, pode levar seja o que for. Mohammed explica-me que "belek" significa "cuidado". Compreendo. Por mais gente que encha a rua, há sempre espaço para as pessoas se afastarem. Nem que seja para o interior de uma loja de perfumes naturais, sabão vendido ao quilo, remédios, chás e frascos cheios de cores e matérias. Não quero comprar nada. O vendedor acredita que sim e possui solução para problemas que me diagnostica instantaneamente: queda de cabelo, acne, falta de vigor. Em francês, repete "vigor" e faz-me uma expressão marota, para o caso de eu não ter entendido à primeira.

 

Volto a sair para a rua. Mohammed nunca me perde de vista. Não sou capaz de fazer o mapa mental destas linhas embaraçadas que, às vezes, parecem voltar para trás. Mas havemos de chegar à madraça, oxalá. Por baixo de um sinal de proibido com o desenho de uma motorizada, passa uma motorizada.

 

E chegamos. De fora, não se imagina o interior. Há uma entrada num muro com a cor de todas as paredes de Marraquexe. Por isso lhe chamam "cidade vermelha". Em rigor, é mais ocre do que vermelha. Mas, sim, é avermelhada. Mohammed, no seu tom professoral, explica que há uma lei que determina que as casas da medina de Marraquexe têm de ser pintadas da cor da casa ao lado. É por isso que todas as casas são da mesma cor, com ligeiras variações. A entrada na Madraça Ben Youssef está encostada a um desses muros opacos. Depois, encontra-se todo o detalhe que a arquitectura marroquina do século XVI era capaz. O trabalho melindroso do gesso esculpido com versos do Corão ou dos pequenos mosaicos a criarem padrões caleidoscópicos, a acompanharem arcos, colunas, tectos. Ou o pátio central, aberto ao céu, com um lago de água limpa sobre azulejos, água fresca. Por seu lado, as celas dos novecentos alunos que a escola corânica chegou a ter são um exemplo de austeridade. Como pequenos buracos na cal, sem janelas, as celas eram distribuídas consoante o melhor ou pior rendimento do aluno. Frescas no verão, exigiam cinco tapetes no inverno para se alcançar uma temperatura aceitável.

 

Ao contrário das mesquitas ou da maioria dos edifícios religiosos, a madraça pode ser visitada por não-muçulmanos. Ao lado, o Museu de Marraquexe também merece uma visita, menos pela colecção de moedas do que pela arquitectura do palácio do século XIX, organizado à volta de uma divisão central com um candelabro gigante.

 

Em Marraquexe, no que diz respeito a monumentos, é também imprescindível passar pelos Túmulos Saadianos. No casbá, na cidadela cercada por muralhas, longe do labirinto que leva à madraça e ao museu, já sem a companhia e a ajuda de Mohammed. Havemos de voltar a ver-nos. Oxalá, oxalá. Os dezasseis túmulos reais datam dos séculos XVI e XVII e, também eles, elaboram o trabalho em gesso, madeira, azulejo e mosaico até à última loucura do mais ínfimo detalhe.

 

Não muito longe, o Palácio Baadi é hoje um espaço enorme rodeado por grandes muralhas de adobe, onde vive uma enorme colónia de cegonhas. Subindo esses degraus, encontram-se vistas excelentes sobre o ritmo frenético do casbá e, também, sobre o vagar elegante das cegonhas, a tratarem de qualquer assunto doméstico na intimidade do seu ninho. Dessa altura é possível imaginar aquilo que deve ter sido esse palácio, mandado construir com os materiais mais nobres pelo rei Ahmed al-Mansur, no auge da dinastia saadiana. Composto por centenas de salas, o palácio foi erguido depois de uma vitória sobre os portugueses no século XVI, tendo mais tarde sido demolido pelo Mulei Ismail Ibn Sharif com o propósito de usar os seus materiais para decorar Meknés, a cidade imperial que ele próprio mandou construir.

 

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Nas ruas do casbá, não é preciso imaginar muito. A grande quantidade de acontecimentos simultâneos prescinde desse esforço. Há homens a remendarem pneus de motorizadas no passeio, limpam os dedos sujos de óleo à parede. Entre pequenos postos de venda de cartuxos de favas ou grão cozido, passam carroças carregadas de areia, puxadas por burros resignados. Toda a gente se dirige a algum lugar. Sigo um homem que carrega dois molhos de galinhas vivas, presas pelas patas e chego ao mercado, onde se vende comida de todas as cores e onde gatos se deslocam devagar, concentrados num mundo só deles.

 

O casbá, as ruelas dos souks, a praça Jemaa El Fna, tudo isto fica na medina. Quando os guias de viagem ou os turistas estrangeiros referem Marraquexe, estão a falar quase exclusivamente da medina antiga, que é o espaço interior das muralhas. É no topo de um terraço que se consegue ter a melhor noção da cartografia intrincada e, ao mesmo tempo, é também aí que se consegue encontrar suficiente distância da azáfama e relativizá-la. Ainda assim, há mais cidade. É fora das muralhas que se estendem as avenidas mais modernas e os prédios, onde vive a maioria dos cerca de novecentos mil habitantes da cidade.

 

O visitante que privilegie o exótico tem poucos motivos para atravessar as muralhas. Mas será uma pena sair de Marraquexe sem ter visitado o Jardim Majorelle. De repente, as ruas dos souks, a confusão ou o trânsito de motores e pessoas deixam de existir. O jardim foi criado ao longo de várias décadas do século passado pelo pintor francês Jacques Majorelle e, a partir dos anos oitenta, recuperado por Yves Saint-Laurent. Dezenas de espécies de cactos, fontes, pássaros ariscos, criam uma harmonia e um silêncio que, em muitos pontos da cidade, se julga impossível. A tranquilidade é valiosa, é necessária.

 

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Impressiona que, tão perto de Portugal, exista um mundo tão diferente. No centro desse mundo, entre a montanha e o oceano, existe uma cidade que condensa uma parte importante das suas riquezas. No centro dessa cidade, como no exacto centro do mundo inteiro, existe uma praça. É lá onde tudo começa e onde tudo termina.

 

À noite, existem focos de luz espalhados pela distância. Mesmo assim, não são suficientes para iluminarem bem a praça inteira. Caminha-se pela quase escuridão entre um ponto e outro. Um contador de histórias garante qualquer coisa em árabe. Quem o ouve e entende, abre bem os olhos, a imaginar. Há gente sentada em bancos de madeira, à volta de grelhas e de fumo, a segurarem espetadas com a mão e a tirarem cubos de carne com os dentes. O ritmo dos músicos não diminuiu, os tambores aproximam-se ou afastam-se, transportados pelo vento. Grupos de acrobatas equilibram-se numa pirâmide, os pés sobre os ombros ou sobre as cabeças. Alguém me toca no braço para me tentar vender um relógio. Passam motorizadas e carruagens puxadas por cavalos, passam crianças a correr. Um anão toca violino.

 

Amanhã chegará outro dia, oxalá. Será um dia completamente igual e completamente diferente deste. Essa é a natureza do tempo. Sim, amanhã chegará outro dia, oxalá, oxalá.

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