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Às vezes, antes de uma palestra ou uma entrevista na televisão, quando preciso de me acalmar, penso que estou na estrada do campo da bola e que caminho sem pressa, com sobreiros, azinheiras e oliveiras de um e de outro lado da estrada. Não preciso de fechar os olhos, essa imagem cobre-me os sentidos e acalma-me imediatamente. O vagar chega-me a cada gesto e sinto o início de um sorriso tímido nos lábios, como o sorriso do meu pai, como o sorriso do meu padrinho novo quando estava a escutar alguém, como o sorriso de todas as pessoas da rua onde nasci. Esse é um sorriso de olhos brilhantes e serenos, como a Barragem da Fonte da Moura.

 

Às vezes, antes de entrar num lugar onde está um microfone e gente à espera de olhar para mim, penso que vou na estrada do campo da bola. Ouço os passos das minhas botas na terra, ouço as cigarras que se soltam ao longo do fim de tarde. Até que enfim que o sol amansou. Quando caminho assim, na terra da estrada, sinto as botas nos pés, sinto as pedras debaixo das botas e não tenho relógio, mas são sempre umas cinco ou seis da tarde. E passo por muitos dos campos onde, antes, quando era pequeno, eu e os meus amigos nos lançávamos a correr, escondidos por searas ou a caminho de alguma figueira que, já sabíamos, estava carregada de figos.

 

Não preciso de fechar os olhos para ver isto, para receber este tempo inteiro. Da mesma maneira, sinto o cheiro da terra, profundo, terra generosa que me fez nascer e que nunca me abandona, por mais longe, por mais cimento que cubra o chão que me sustém. Caminho na estrada do campo da bola, não como uma lembrança de outros tempos, como outra idade. Avanço devagar no presente, no presente absoluto, com a idade daquele instante, exactamente como se estivesse lá.

 

Em tantos aspectos, eu ainda estou lá.

 

Com essa liberdade, pode calhar a aparecer um cão que nunca vi, mas que presumo que deva pertencer a algum pastor e a quem faço festas na cabeça. Sinto com total clareza a forma e a textura da sua cabeça na palma da minha mão. Pode também acontecer que me apeteça parar de roda das silvas e escolher algumas amoras, se for tempo delas. São doces e tenho de ter cuidado para não deixarem nódoas na roupa. Mesmo assim, mais habitualmente, apenas caminho. A estrada tem um bom tamanho, permite-me respirar, encher o peito todo de brisas com aroma de seiva, de cardo seco, de terra molhada, dependendo da altura do ano. Em qualquer dos casos, sobre mim, o céu é sempre enorme, eterno, a mostrar-me com o seu tamanho e com a sua eternidade o quando é humano aquilo que me preocupa, tudo o que me diz respeito.

 

Quando chego ao início da barreira que leva ao campo da bola, já estou capaz de regressar a onde quer que esteja. Raramente preciso de chegar a meio da barreira e ver, lá em cima, ainda a certa distância, uma das balizas do campo, deixado ao cuidado das estações e da natureza.

 

Então, estou pronto, levo em mim aquilo que sou. 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Outubro, 2012)

 

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publicado às 10:12


6 comentários

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De Caruma a 20.10.2012 às 19:49

Quando não se conhece a estrada do campo da bola, o melhor é procurar outra estada por onde se tenha passado.
A estrada dos outros, mesmo a do José (Peixoto ou Saramago) de pouco nos serve.

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