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Sinto ternura pelos actores de filmes portugueses dos anos trinta e quarenta. É uma ternura branda, que se alastra pelas coisas e, como o pôr-do-sol, se cola à paisagem. Por via desse sentimento, os actores de filmes portugueses dos anos trinta e quarenta pertencem-me um pouco. Por essa mesma via, também eu lhes pertenço. Somos contemporâneos nesse sentimento, temos longas conversas dentro dele.

 

Nesse convívio, eles articulam cada palavra com cuidado. As frases mais simples são esculturas, moldadas sílaba a sílaba pela pronúncia de Lisboa, entre a Estrela e Campo de Ourique. Os actores de filmes portugueses dos anos trinta e quarenta, encontram-se nas mesas de uma pastelaria, pedem garotos de limão e bolos de arroz. Ouvi dizer que, aos domingos, se juntam em bailes, matinés onde os senhores estendem a mão às senhoras e lhes pedem a honra da próxima dança. Nunca assisti a esses bailes, mas não me é difícil imaginá-los, leves, a flutuarem aos pares, com os corpos a dois palmos de distância, mas com as mãos juntas, pele.

 

Uma vez, há alguns anos, quis mostrar um desses filmes a uma amiga croata que tinha aprendido português. Ela falava bastante bem, cantava canções portuguesas no duche. Talvez por isso, escolhi A Canção de Lisboa, que clássico, Vasco Santana, Beatriz Costa, Ribeirinho, o primeiro filme sonoro português. Sentámo-nos no sofá, à meia-luz. Eu comecei a emocionar-me logo no genérico: os nomes, o tipo de letra, os tons de cinzento. E a música, melodia/felicidade. Falando de melodia, é possível falar-se de perfeição. A melodia transporta um sentido próprio que preenche os momentos, que os harmoniza. Nessa tarde, de estores baixos, os actores surgiram no ecrã da televisão a trocarem sorrisos, bem dispostos. Logo nas primeiras cenas, ao escutar frases que sabia de cor, frases que antecipava palavra a palavra, comecei a reparar que a minha amiga croata não se ria, não sorria sequer. O Vasco Santana dava o seu melhor e ela olhava-o indiferente. Decidi esperar dez minutos. Quando passaram, decidi esperar mais dez. Ao longo desse tempo, a minha amiga continuou impávida, com um ar de tédio ligeiro.

 

Não tenho explicações definitivas. Talvez o humor desses filmes assente muito na escolha de palavras, nos trocadilhos com a língua e com a pronúncia; talvez as referências à realidade do país sejam muito específicas; talvez haja outras razões que não sou capaz de enumerar. Aquilo que é certo, já o comprovei mais vezes, é que os filmes portugueses dos anos trinta e quarenta não tocam esse público que não é português ( x = 7 mil milhões - 10 milhões).

 

É pena. Não é pena para esse x de milhares de milhões de pessoas que não sabem o que perdem, é pena para esses actores dos filmes portugueses dos anos trinta e quarenta, com cara de bonecos, estereotipadamente cómicos, a sentirem talvez que a sua cortesia foi em vão. Não foi. Por isso, rio-me mil vezes da mesma piada, ensino-a aos meus filhos e, se encontro algum actor dos filmes portugueses dos anos trinta e quarenta junto a uma passadeira, dou-lhe o braço e, devagar, ao seu ritmo, ajudo-o a atravessar a rua.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP - revista de bordo dos voos da TAP (Março de 2012)


 

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publicado às 10:49


10 comentários

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De CLOOTILDE ALMEIDA a 01.04.2012 às 11:12

É isto que mostra a pessoa bonita que está aí. Emocionas, eu tenho quase a idade destes filmes. É bom existirem pessoas assim...GOSTO!
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De AnuskA a 01.04.2012 às 12:28

:)

\m/ *
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De maria a 01.04.2012 às 12:57

és fabuloso, José Luís Peixoto.
são fabulosos os nossos filmes a preto e branco dos anos 30/40, com os nossos fabulosos actores desses tempos (sem desprimor para os de agora).
sempre serão fabulosos, uns e outros.
rio e choro, sempre, como se os visse sempre pela primeira vez.
lembro de ter chorado "baba e ranho", do principio ao fim, em "O Fado".
gosto de me rir com as conversas de Raúl Solnado!

um amigo disse-me há dias:
- José Luís Peixoto, não tem tempo, é de sempre, é respiração!!!

concordo, absolutamente!

abraço.
maria.
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De Ana a 01.04.2012 às 20:58

Parece-me engraçado que o JLP possa ser criticado por um tipo de pessoas mais conservadoras e habituadas a julgar um certo tipo de aparência física (de resto como já aqui se falou noutro post), porém, parece-me ele em si um “conservador”, no que de melhor a palavra encerra, e nesse sentido, parece-me que promove o encontro de gerações, ao contrário do que possa parecer. Este texto comprova-o. Desde pequena assisto a esses filmes com os meus pais e tios mais velhos e todos sentimos um pouco isso, a expectativa de uma piada que já se conhece de cor mas que nos surpreende sempre um sorriso e dispõem bem, e que é em si um sentido de pertença a uma cultura que é nossa para cultivar.
Há dias, aqui no Porto, num café da Baixa, enquanto pagava o lanche junto da caixa registadora, tinha atrás de mim uma senhora que para tirar o seu porta-moedas apoiou o livro “Livro” do JLP no balcão. Não resisti a iniciar conversa com ela, afinal um toque portuense, e perguntei: “Está a gostar?”. Ela respondeu com naturalidade, como se fosse suposto conversarmos, e disse-me que ainda não sabia porque estava apenas nas primeiras páginas e perguntou-me de volta: “porquê? Já leu?”. “Já e adorei, já li outros dele mas continuo a preferir esse, vai ver que vai gostar muito”, foi o que lhe respondi. E ela disse-me: “ai que boas notícias que me está a dar!”. Eu com 32 anos, ela suponho que nos seus 70 :)
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De Passarinho a 03.04.2012 às 16:43

Percebo o que a Ana quer dizer, mas eu não diria que é conservadorismo. Eu diria que é saudosismo talvez. O JLP parecet ter o desejo de preservar aquilo que o tempo se encarregou de erudir. São esses pequenos detalhes, pequenos gestos, que parecem não ter muita relevância mas, não existindo, deixam um vazio de sensibilidade. Detalhes esses que eu inutilmente procuro, mas que julgo já extintos, ou quase. Obrigado JLP, por escrever textos que me aquecem a alma.
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De Claudia a 06.04.2012 às 18:00

Não deixa de ser curioso, quando digo o meu nome, seguido do apelido, acrescento sempre: do Evaristo tens cá disto!!! e 99% dos casos não acham piada ou nem entendem, eu continuo a tentar e a divertir-me com isso....
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De Lídia Martins a 06.04.2012 às 18:26

Também fiquei com pena. Mas não foi dos atores dos anos trinta, nem da letárgica massa. Tive pena de sua amiga. Foi natural que ela desrespeitasse cenas das quais não se identificasse. Não deve ser fácil estar diante de situações que realcem a consciência de nossa própria ignorância. E você sabe, Zé: "os opostos se retraem." Passei por isto quando assistia pela décima vez ao "Le Fabulex Destin D'Amélie Poulain." Tomei todo cuidado para mostrar a pessoa detalhes de cenas que, por capricho de alguma distração poderiam passar despercebidas. Eu chorava, enquanto minha companhia desdenhosamente, ria. Assim como você, também costumo manifestar desapreço por tudo o que não representa sabedoria. Elegância de alma é uma virtude cada vez mais escassa hoje em dia.

Zé,

Atiro gentilezas pela janela. Caem verticalmente sobre as cabeças alheias. E são esmagadas pelos cascos de seus pensamentos-cavalos.

Um filme dos anos trinta. Às vezes é assim que imagino a minha vida.

Um beijo,

Pipa.
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De Leonaldo Brum a 08.04.2012 às 00:32

"Chapéus há muitos, seu palerma!..."

Concordo consigo, filmes com pinta. O António Silva era impagável. Ele sim, que era um verdadeiro compêndio de tiques e ditos.

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De Maria a 13.04.2012 às 11:43

Concordo com tudo o que diz sobre o tema na qualidade de grande fã destes filmes e do que representam. Espero que tenha já visto "O Costa de África", excelente mas pouco divulgado.
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De Piursa a 27.04.2012 às 23:05

Esta é uma bela e merecida homenagem aos antigos filmes portugueses!

Também eu sei de cor os diálogos e utilizo chavões do tipo "Chapéus há muitos seu palerma", "Olha as tias", "É o fígado" ou "Quando lá chegares manda saudades que é coisa que cá não deixas".

O Costa de África vi-o só uma vez, mas apesar de ser o menos conhecido, é o mais impressionante e bem construído!

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