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Lembro-me do meu filho e eu a atravessarmos o largo das mamas. O meu filho a dar pontapés na bola, em direcção ao campo, e eu a caminhar atrás dele, a segui-lo. Antes, num dia que não recordo com data, contei-lhe que se chamava largo das maminhas, como se o diminutivo tornasse mais tolerável o facto de avançarmos entre elevações arredondadas da calçada, mamilos gigantes de pedra. Chegados ao campo, lembro-me do meu filho a rematar à baliza com toda a sua força e eu, que já tinha desistido das minhas ambições futebolísticas do início da adolescência, que já as tinha esquecido, a recuperá-las de novo durante uma hora.

 

Pensamos que é por pouco tempo e, de repente, passam cinco anos, dez anos, uma idade, uma fatia de vida. Não sei quanto tempo contamos viver. Creio que preferimos não pensar nisso. Para fazê-lo, teríamos de considerar aquilo que, um dia, irá acontecer a estas mãos, a este corpo, a estes ossos. Pó. Todas as despedidas são parte dessa grande despedida.

 

Sair da segunda circular e chegar a casa. Se pudesse, criava um dia novo e oferecia-o aos Olivais: manhã de sábado, tarde de domingo e noite de sexta-feira. Os Olivais mereciam um dia assim. Os senhores podiam passear os cães o dia inteiro e as senhoras podiam vestir aqueles vestidos e aqueles sorrisos de ir ao centro comercial. As testemunhas de Jeová podiam ficar sentadas à sombra, com as revistas no colo, a porem a conversa em dia enquanto esperavam que passasse alguém. As crianças podiam encher-se daquela alegria limpa, antes de entrarem na Quinta Pedagógica, de mãos dadas entre a mãe e o pai.

 

Tantas manhãs, tantos almoços e jantares, foi com tanta tranquilidade que pousei as pálpebras sobre os olhos para adormecer nos Olivais. Tantas vezes que andei à procura de lugar para estacionar o carro e tantas vezes que, no dia seguinte, não me lembrei onde o tinha estacionado. E, ao longo da tarde, tocava a campainha: quem é? E uma voz brasileira através do intercomunicador do prédio: publicidade, pode abrir a porta, senhor? E os autocarros a passarem de dia, de noite, e eu a aprender o barulho que fazem quando vão vazios. Os Olivais no verão, os Olivais no inverno. Os homens do lixo às três da manhã.

 

Pertence-me este pedaço de céu que está aqui, à minha frente. Estou a captá-lo com a abrangência máxima dos meus sentidos. Se quem vai a conduzir aquele carro é dono dele por dentro, eu sou dono dele por fora enquanto o sigo com o olhar. É por isso que os Olivais me pertenceram e que eu pertenci aos Olivais, respirámos o ar um do outro. Enquanto acartava carradas de livros, eu sentia os prédios dos Olivais a despedirem-se de mim, eu sentia as árvores a recordarem-me tudo, bom e mau, que seria fácil esquecer. Os lugares são mais espertos do que as pessoas em assuntos dessa cor. Conhecem muito melhor o tempo, aceitam-no.

 

E ainda tudo. Eu a carregar livros e objectos, como se assaltasse uma casa, como se fugisse, e ainda tudo. Os velhos a deslizarem pelos passeios como barcos. Ou sentados em cadeiras de plástico do centro comercial, a verem televisão, sozinhos, a lerem jornais gratuitos, a olharem uns para os outros. As mulheres escolheram brincos e trouxeram a mala para passarem a tarde, sentadas ao lado dos homens, em silêncio, nas mesas da praça da alimentação, sem consumir. Ou no supermercado, a compararem preços, a olharem para todas as prateleiras e a saírem com um pão, um pacote de margarina, um pacote de leite, duas maçãs. Se pudesse, abraçava agora os velhos dos Olivais um a um, mesmo os mal-dispostos, mesmo os rezingões, mesmo os fascistas.

 

E ainda tudo. Os carros das escolas de condução a estacionarem de marcha atrás, a pararem sempre antes das passadeiras, a fazerem sempre pisca, cheios de letras fluorescentes e jovens assustados em segunda, como carrinhos de pilhas, sem pararem nunca, às voltas, às voltas. Eu a levar caixas, a sentir o tamanho solene daquele momento e os alunos do ciclo preparatório, condenados perpetuamente àquela idade, sem crescerem ao longo de todo o tempo que ali passei, a rirem-se despropositadamente e a fumarem cigarros como se estivessem muito habituados, e ainda aqueles bonés, aquelas sapatilhas, aquelas mochilas, ainda tudo.

 

Despeço-me agora, Olivais Sul, mas hei-de voltar. Por favor, não te esqueças de mim. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Junho 2011)

 

 

 

 

 

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publicado às 11:36


8 comentários

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De Lorenzo Sanctós a 23.07.2011 às 17:18


La permanenza existe, ma non prima dell'essere l'oblio.

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