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Até 27 de agosto, José Luís Peixoto participará em várias atividades nas cidades de Resistencia, Cordoba e Buenos Aires.

Em Resistencia (Chaco), no âmbito do 24º Foro Internacional por el Fomento del Libro y la Lectura, participará nas seguintes atividades:

22/08/2019 — 9h00 — RESISTÊNCIA — AUDITORIO CASA DE LAS CULTURAS

23/08/2019 — 9h30 — RESISTÊNCIA — INSTITUTO SAN FERNNANDO REY

23/08/2019 — 18h00 — RESISTÊNCIA — CENTRO DE CONGRESSOS

Em Cordoba:

26/08/2019 — 18h00— CÓRDOBA — BIBLIOTECA DE LA FACULTAD DE LENGUAS, UNIVERSIDAD NACIONAL DE CÓRDOBA

Em Buenos Aires:

27/08/2019 — 18h30— BUENOS AIRES — INSTITUTO SUPERIOR DE LENGUAS VIVAS JUAN RAMÓN FERNÁNDEZ 

 

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publicado às 12:11

Durante a FLIP, José Luís Peixoto teve uma conversa com Mell Ferraz e Pedro Pacífico dos canais de livros  Literature-se e Bookster. 

Aqui fica, em duas partes:

 

 

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publicado às 13:03

UM NOTÁVEL TEMPO NARRATIVO

Miguel Real, in Jornal de Letras (julho 2019)

 

No futuro, Autobiografia talvez se venha a constituir como o melhor romance de José Luís Peixoto (JLP) publicado até 2019, não por conter José Saramago e Pilar como personagens, não por inovar estilisticamente face à obra anterior, mas pelo notável trabalho sobre a categoria de tempo narrativo, que, deveras, ainda que firmado sobre o tempo real, especificado no texto com algum pormenor, assume a função maior de organização estrutural do romance.

 

De facto, o registo da escrita de JLP permanece igual: um cruzamento original entre um explícito realismo (nome de ruas, bairros, descrição física e psíquica de personagens, origem geográfica ou étnica destas, profissões, condições familiares…) e um lirismo descritor de situações sociais labirínticas que, contra a vontade das personagens, as arrastam para o fracasso, um fracasso descrito de um modo fatal, inevitável, ainda que com palavras suaves, como se fosse próprio do homem não realizar-se. O lirismo, em JLP, reside na impossibilidade de se realizar o que deveria ser realizado, lançando as personagens num jogo mental não trágico de compensação e substituição.

 

Bucelas, Bairro da Encarnação e Bairro das Colónias em Lisboa, Pangim-Goa, Santo Antão-Cabo Verde, Quinta do Mocho-Sacavém e Lanzarote constituem-se como as bases do realismo de Autobiografia. Saramago/Pilar, José/Lídia, Bartolomeu de Gusmão (lembram-se?), Fritz e os pais, Mãe de José são, com excepção do primeiro par, seres fracassados, que parecem arrastar-se num tempo de decadência das suas vidas (Bartolomeu, Fritz, Mãe de José), que igualmente aprisiona as personagens jovens (José, Lídia, Domingues), incapazes de criar um tempo realizador novo.

 

O tempo narrativo nasce da inter-relação entre os momentos da existência das personagens, formando um puzzle, no qual, porém, um novo momento temporal da narração não só condensa todos os momentos e factos narrados anteriormente como revela um sentido antes oculto à história narrada, como se, em cada capítulo, uma outra estória estivesse a acontecer e o romance avançasse por camadas sucessivas. Não se trata de cronologia, aqui totalmente subvertida, não se trata de continuidade ou de sucessividade narrativa (não existe um fio de ligação senão que são sempre as mesmas personagens, estas porém evidenciadas coleidoscopicamente, como se em cada capítulo brilhasse apenas uma vertente), mas de acumulação de acontecimentos, como se fossem estratos geológicos uns sobre os outros. A estrutura temporal de Autobiografia é, assim, um tempo de acumulação de acontecimentos cuja presumível unidade ou fil rouge só pode ser conferido pelo leitor. É a grande participação do leitor, prestar unidade ao que é mostrado multiplamente, detectar o todo onde só se vê partes. Autobiografia exige, assim, um leitor nada preguiçoso, aliás, convidado pelo narrador a participar, já que em certos momentos, fundem-se narração da realidade exterior e a própria realidade exterior, narrador e leitor.

 

Não é de admirar, portanto, que consoante o leitor privilegie uma personagem (por exemplo, Bartolomeu, retornado de Angola, Fritz de família com origem em Goa, depois Lourenço Marques, depois Viena de Áustria; ou Lídia, de Santo Antão, depois Quinta do Mocho…), assim tenha uma visão geral diferente do romance: o de um Império a desfazer-se (Fritz, que “cega” no retorno a Goa), a do “retornado” africano como um faz-tudo exilado em Portugal, capaz de reconstruir a vida, de enriquecer de novo a partir de diamantes trazidos enfiados no ânus; a de Lídia cabo-verdiana, serviçal dos portugueses, arrastada na miséria, sem nunca perder a doçura e a alegria; a de Domingos, cabo-verdiano que sobrevive pela violência…).

 

No centro desta teia, emerge Saramago e, acessoriamente, Pilar, representada de um modo passivo e não como o intenso amor maduro do escritor (e é pena!). No centro do romance está Saramago e no centro desta personagem está um segredo, que o une a José, o jovem escritor de um primeiro romance, que anseia por escrever o segundo. O editor  – Raimundo Benvindo Silva, que JLP eleva de revisor e autor a editor –, diferentemente, propõe-lhe escrever uma biografia de Saramago, que José aceita hesitantemente.

 

Não devemos revelar o “segredo”, nem devemos revelar se, afinal, José escreve ou não a biografia de Saramago, já que seria anular o efeito suspensivo que o autor imprimiu a Autobiografia – duas revelações só feitas perto do final. E, no caso do título, nem nós temos a certeza qual o verdadeiro autor de “autobiografia”, se Saramago, que assim teria inventado a personagem José para se auto-retratar, e todo o romance seria seu enquanto personagem, se de José, que assim escreveria um romance a narrar a terrível passagem entre o primeiro e o segundo romances. Quem é o autor implícito de Autobiografia, já que o explícito é JLP? A resposta a esta questão, que só pode ser pensada a partir da leitura dos momentos finais, decide a totalidade da interpretação e do sentido do romance. Comprovando a noção de tempo acumulativo (um momento sobre outro, mas não necessariamente um momento causado e derivado do anterior), da resposta que o leitor deduzir, decorrerá o sentido total de Autobiografia.

 

Não hesitamos em qualificar Autobiografia como o melhor romance português publicado até ao verão de 2019.

 

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publicado às 11:54

Passagem

27.07.19

"Passagem" é o nome da nova secção deste blog, onde poderão ser lidos textos de José Luís Peixoto sobre viagens. 

Ler AQUI.

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publicado às 17:26

Apresentações do romance "Autobiografia" em Lisboa e no Porto :

LISBOA — 18 de julho, 18h30 — Livraria Ler Devagar, Lx Factory,  R. Rodrigues de Faria 103 - G 0.3, 1300-501 Lisboa

PORTO — 20 de julho, 16h30 — Livraria Bertrand Cidade do Porto, Rua Gonçalo Sampaio, 350, 4150-365 Porto

 

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publicado às 15:58

 

No mês de julho de 2019, José Luís Peixoto participará nas seguintes atividades no Brasil:

 

PORTO ALEGRE — 5 de julho, 19h30 — Com Pilar del Rio e Paulo Ricardo Kralik— PUCRS, Auditório da Escola das Humanidades, Prédio 9

 

- PORTO ALEGRE — 9 de julho, 14h00 — Com Cristiano Baldi e Paulo Ricardo Kralik — PUCRS

 

PARATY, FLIP — 10 de julho, 21h — Lançamento de  Autobiografia exclusivo com associados TAG — Casa TAG, Rua da Matriz, 107, Centro Histórico

 

- PARATY, FLIP — 11 de julho, 14h30 — A literatura infantil de José Luís Peixoto — Tenda SESC Areal do Pontal

 

- PARATY, FLIP — 12 de julho, 14h30 — Literatura à Portuguesa: conversa com José Luís Peixoto e Pilar del Rio, mediada por Henrique Rodrigues — SESC Caborê, Rua Octávio Gama, 1709, Bairro Caborê

 

PARATY, FLIP — 13 de julho, 15h — Lançamento do romance Autobiografia com José Luís Peixoto e Pilar del Rio, mediado por André Araújo + Sessão de Autógrafos — Casa TAG, Rua da Matriz, 107, Centro Histórico

 

PARATY, FLIP — 13 de julho, 20h — Luto e Memória na literatura de José Luís Peixoto — Casa Paratodxs, Galeria Aecio Sarti, Rua Dr. Samuel Costa, 254, 23970 Paraty

 

- BRASÍLIA — 16 de julho, 19h — Conversa com José Luís Peixoto e Pilar del Rio — Embaixada de Portugal, Auditório Camões,  SES Quadra 801, lote 02

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publicado às 16:29

PORTO ALEGRE — 5 de julho — 19h30 — PUCRS —Auditório da Escola das Humanidades, Prédio 9 — Com Pilar del Rio e Paulo Ricardo Kralik.

PARATY, FLIP — 13 de julho — 15h — Casa TAG, Rua da Matriz, 107, Centro Histórico — Com Pilar del Rio e André Araújo.

BRASÍLIA — 16 de julho — 19h — Embaixada de Portugal, Auditório Camões

LISBOA — 18 de julho — 21h30 — Livraria Ler Devagar, LX Factory

PORTO — 20 de julho — 16h — LIvraria Bertrand, Shopping Cidade do Porto

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Edição brasileira — TAG/Companhia das Letras

 

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Edição portuguesa — Quetzal

 

 

 

 

 

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publicado às 04:42

"Autobiografia" é o título do novo romance de José Luís Peixoto. 

Será publicado durante o mês de julho em Portugal e no Brasil, onde será publicado em exclusivo pelo clube do livro TAG

Mais informações sobre a edição portuguesa: AQUI

Mais informações sobre a edição brasileira: AQUI

Opinião sobre o romance e sobre edição edição brasileira:

Capa portuguesa:

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publicado às 10:58

TEXTO E FOTOGRAFIAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

 

De olhos fechados, distingo devagar cada um dos sons que me rodeiam.

 

Os tambores lá ao fundo. São grupos de músicos berberes. Sentam-se num círculo e, cercados por um muro de pessoas, tocam sem parar. Cada batida na pele desses tambores atravessa a praça inteira e chega até aqui. Ao longo desse caminho, atravessa o rugido de todas as vozes. São vozes de uma multidão de indivíduos, homens, mulheres, crianças, vozes mais próximas e mais distantes, são vozes misturadas, vozes que serpenteiam como o som das cornetas, também lá ao fundo. As cornetas dos encantadores de serpentes possuem uma melodia estridente que parece infinita. Segue sempre em alguma direcção, decidida, mas nunca chega ao seu destino. Essa melodia evolui como uma sirene contínua, constante, mas sempre diferente, em evolução. Mais perto, o zumbido esforçado das motorizadas, a hesitarem um caminho de curvas entre as pessoas que cruzam a estrada em todos os sentidos, gente carregada de sacos e de vozes, mais vozes ainda. E perto, aqui mesmo, à distância da minha mão, o som de loiça a tocar a mesa, o som de uma colher a tilintar no pires.

 

Abro os olhos. O empregado chegou com o chá de menta e está parado à minha frente. O seu sorriso é brando. Tento responder-lhe com um sorriso igual. Afasta-se satisfeito e volto a sentir o sol na pele do rosto. Não preciso de fechar os olhos para receber esse conforto. O dia quer terminar e tem preparada a luz perfeita, redentora. O chá não está demasiado quente, está espesso e perfumado.

 

A praça Jemaa El Fna muda com as horas do dia. Durante a tarde, cada laranja dos vendedores de sumo é um sol. Sentadas em bancos baixos, há mulheres a segurarem seringas cheias de henna. Por pouco dinheiro, desenham cornucópias cheias de detalhe nas costas das mãos de turistas, mulheres ou raparigas. Muito perto, há homens a segurarem trelas, a passearem macacos vestidos com roupa de pequenas pessoas peludas. Também esses distinguem turistas entre a multidão. Os macacos trepam-lhes para os ombros e quase de certeza que os turistas hão-de querer mostrar essa fotografia lá para onde regressarem. Uma moeda de dez dirhans não é pedir muito pela garantia dessa sensação.

 

Ninguém pode parar o tempo. Durante o fim longo da tarde, há aqueles que ainda olham para o passado. Como os donos dos macacos, os encantadores de serpentes têm pressa de aproveitar a última luz, incientivo a que os turistas tirem mais uma fotografia. Envoltos pela insistência das tais cornetas, há rapazes que querem convencer turistas a posarem com serpentes enroladas nos braços. Mas o tempo continua, ninguém pode pará-lo. O sol desceu já por detrás do minarete da mesquita de Koutoubia. Os raios de luz que o circundam tornam-no incandescente, como Alá. E, de repente, esse nome divino, feito com uma vogal que enche a boca e pode ser suspensa, é gritado desde várias direcções, estendendo-se a partir dos altifalantes no ponto mais alto das mesquitas, como se cobrisse a cidade inteira. Entre a urgência daqueles que atravessam a praça, é quase certo que alguns se dirigem para essas mesquitas onde os chamam. Mas a praça, como o tempo, continua sempre. Homens de bigode e camisas rasgadas terminam de montar todos os ferros das barracas de comida. Juntam essas peças todos os dias, organizam esse barulho de ferro contra ferro. Agora, falta apenas um fio muito fino para que chegue a noite. Debaixo das barracas quase montadas, já ardem as brasas onde serão assadas as espetadas de carne moída.

 

Não muito longe, à volta de um círculo no chão, formado por garrafas de coca-cola, há rapazes e crianças que seguram canas de pesca com argolas na ponta de um longo cordel. Se conseguirem enfiá-las no gargalo, ganham a garrafa. Ao lado, homens vestidos de mulher, com o rosto tapado como muitas mulheres, dançam exageradamente. Entre os vários grupos, passam os vendedores de água, equilibram um exuberante chapéu garrido, com roupas também garridas, com medalhas penduradas e copos de cobre. Apontam para os turistas e fazem o gesto de tirar uma fotografia. O som dos sinos que agitam encontra um lugar entre todos os outros sons. Depois de seguir os vendedores de água com olhar durante minutos, parece-me que são um bom símbolo de muito do que se vê na praça. Estão vestidos de forma tão folclórica que parece artificial, a insistência com que chamam os turistas também não lhes acrescenta genuinidade. No entanto, uma mulher e uma criança aproximam-se deles. O sino deixa de tocar. O vendedor enche um dos copos de cobre com água retirada do seu enorme cantil de cabedal. Enquanto a criança bebe, o homem e a mulher esperam. A criança bebe devagar, dentro de um silêncio pequeno, difícil de distinguir. Quando termina, a mulher dá uma moeda ao vendedor, que volta a tocar o sino e a meter-se com turistas. Ou seja, o vendedor de água vende efectivamente água, sacia mesmo a sede a alguém, mas se puder lucrar com o turismo, aproveita. É assim com quase tudo o que acontece na praça. Há uma multidão de marroquinos a assistirem aos músicos berberes, batem palmas, a música entra-lhes mesmo dentro do seu ritmo pessoal. Mas chega um turista e há um músico que imediatamente lhe estende o chapéu, a pedir moedas: dirhans, dirhans, dirhans.

 

Anoitece sobre a praça, sobre toda essa gente. As luzes das barracas onde se vende tigelas de caracóis estão acesas desde o lusco-fusco. Em Marraquexe, é na praça Jemaa El Fna que tudo começa e, não há qualquer dúvida, é também na praça Jemaa El Fna que tudo termina, oxalá.

 

Cada vez que se fala de qualquer coisa no futuro, Mohammed diz sempre: incha' Allah. Significa "Deus queira" em árabe. Quem usa essa expressão está a afirmar-se nas mãos de Deus. Essa é a origem etimológica da palavra portuguesa "oxalá". Enquanto avançamos pelas ruas do souk, pergunto a Mohammed se nos dirigimos para a Madraça Ben Youseff. Ele, como seria de esperar, responde: Incha' Allah. Oxalá mesmo, penso eu. Se me perder dele, não vai ser fácil encontrar o caminho de volta para a praça.

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Há de tudo, pelo menos é o que parece. Todas as portas de todas as casas estão rodeadas por artigos à venda. Quando se olha para algo, o vendedor chega imediatamente. Na maioria das vezes, não é preciso olhar, o vendedor, poliglota, começa logo a perguntar qual a melhor língua para conversarmos: Italiano? Español? Français? English? Entre tudo o que está em exposição, nota-se que, às vezes, há uma concentração maior de determinado material ou ofício. Se houver muitos homens sentados a soldarem ou a martelarem chapas de metal, por exemplo, chegámos ao Souk do Ferro. Esse é um bom lugar para procurar candeeiros, mesas ou objectos que, se apanharem chuva, hão-de enferrujar, oxalá. Se houver homens rodeados de serradura, a girarem com as mãos e com os pés um aparelho de correias, no qual lâminas afiadas moldam ripas, chegámos ao Souk da Madeira. Também há o Souk dos Tapetes, claro, ou o Souk dos Babouches, onde se pode encontrar aquele sapato bicudo, típico dos países árabes, com toda a espécie de padrões, com o emblema de quase todas as equipas de futebol. Para além destes e de muitos mais, o Souk dos Tintureiros é onde as cores são capazes de ser ainda mais vivas, enchem os olhos. Pouco depois, não são necessárias indicações para chegar ao Souk dos Curtidores, descobre-se pelo cheiro.

 

De manhã, os raios de sol atravessam os telhados de palhinha que cobrem as ruas destes mercados. São raios oblíquos, bem desenhados que tocam os objectos, os olhares e o movimento de todas as coisas. Belek, belek, grita um homem que passa a empurrar um atrelado ao longo da rua estreita, pode levar legumes, panos, loiça, pode levar seja o que for. Mohammed explica-me que "belek" significa "cuidado". Compreendo. Por mais gente que encha a rua, há sempre espaço para as pessoas se afastarem. Nem que seja para o interior de uma loja de perfumes naturais, sabão vendido ao quilo, remédios, chás e frascos cheios de cores e matérias. Não quero comprar nada. O vendedor acredita que sim e possui solução para problemas que me diagnostica instantaneamente: queda de cabelo, acne, falta de vigor. Em francês, repete "vigor" e faz-me uma expressão marota, para o caso de eu não ter entendido à primeira.

 

Volto a sair para a rua. Mohammed nunca me perde de vista. Não sou capaz de fazer o mapa mental destas linhas embaraçadas que, às vezes, parecem voltar para trás. Mas havemos de chegar à madraça, oxalá. Por baixo de um sinal de proibido com o desenho de uma motorizada, passa uma motorizada.

 

E chegamos. De fora, não se imagina o interior. Há uma entrada num muro com a cor de todas as paredes de Marraquexe. Por isso lhe chamam "cidade vermelha". Em rigor, é mais ocre do que vermelha. Mas, sim, é avermelhada. Mohammed, no seu tom professoral, explica que há uma lei que determina que as casas da medina de Marraquexe têm de ser pintadas da cor da casa ao lado. É por isso que todas as casas são da mesma cor, com ligeiras variações. A entrada na Madraça Ben Youssef está encostada a um desses muros opacos. Depois, encontra-se todo o detalhe que a arquitectura marroquina do século XVI era capaz. O trabalho melindroso do gesso esculpido com versos do Corão ou dos pequenos mosaicos a criarem padrões caleidoscópicos, a acompanharem arcos, colunas, tectos. Ou o pátio central, aberto ao céu, com um lago de água limpa sobre azulejos, água fresca. Por seu lado, as celas dos novecentos alunos que a escola corânica chegou a ter são um exemplo de austeridade. Como pequenos buracos na cal, sem janelas, as celas eram distribuídas consoante o melhor ou pior rendimento do aluno. Frescas no verão, exigiam cinco tapetes no inverno para se alcançar uma temperatura aceitável.

 

Ao contrário das mesquitas ou da maioria dos edifícios religiosos, a madraça pode ser visitada por não-muçulmanos. Ao lado, o Museu de Marraquexe também merece uma visita, menos pela colecção de moedas do que pela arquitectura do palácio do século XIX, organizado à volta de uma divisão central com um candelabro gigante.

 

Em Marraquexe, no que diz respeito a monumentos, é também imprescindível passar pelos Túmulos Saadianos. No casbá, na cidadela cercada por muralhas, longe do labirinto que leva à madraça e ao museu, já sem a companhia e a ajuda de Mohammed. Havemos de voltar a ver-nos. Oxalá, oxalá. Os dezasseis túmulos reais datam dos séculos XVI e XVII e, também eles, elaboram o trabalho em gesso, madeira, azulejo e mosaico até à última loucura do mais ínfimo detalhe.

 

Não muito longe, o Palácio Baadi é hoje um espaço enorme rodeado por grandes muralhas de adobe, onde vive uma enorme colónia de cegonhas. Subindo esses degraus, encontram-se vistas excelentes sobre o ritmo frenético do casbá e, também, sobre o vagar elegante das cegonhas, a tratarem de qualquer assunto doméstico na intimidade do seu ninho. Dessa altura é possível imaginar aquilo que deve ter sido esse palácio, mandado construir com os materiais mais nobres pelo rei Ahmed al-Mansur, no auge da dinastia saadiana. Composto por centenas de salas, o palácio foi erguido depois de uma vitória sobre os portugueses no século XVI, tendo mais tarde sido demolido pelo Mulei Ismail Ibn Sharif com o propósito de usar os seus materiais para decorar Meknés, a cidade imperial que ele próprio mandou construir.

 

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Nas ruas do casbá, não é preciso imaginar muito. A grande quantidade de acontecimentos simultâneos prescinde desse esforço. Há homens a remendarem pneus de motorizadas no passeio, limpam os dedos sujos de óleo à parede. Entre pequenos postos de venda de cartuxos de favas ou grão cozido, passam carroças carregadas de areia, puxadas por burros resignados. Toda a gente se dirige a algum lugar. Sigo um homem que carrega dois molhos de galinhas vivas, presas pelas patas e chego ao mercado, onde se vende comida de todas as cores e onde gatos se deslocam devagar, concentrados num mundo só deles.

 

O casbá, as ruelas dos souks, a praça Jemaa El Fna, tudo isto fica na medina. Quando os guias de viagem ou os turistas estrangeiros referem Marraquexe, estão a falar quase exclusivamente da medina antiga, que é o espaço interior das muralhas. É no topo de um terraço que se consegue ter a melhor noção da cartografia intrincada e, ao mesmo tempo, é também aí que se consegue encontrar suficiente distância da azáfama e relativizá-la. Ainda assim, há mais cidade. É fora das muralhas que se estendem as avenidas mais modernas e os prédios, onde vive a maioria dos cerca de novecentos mil habitantes da cidade.

 

O visitante que privilegie o exótico tem poucos motivos para atravessar as muralhas. Mas será uma pena sair de Marraquexe sem ter visitado o Jardim Majorelle. De repente, as ruas dos souks, a confusão ou o trânsito de motores e pessoas deixam de existir. O jardim foi criado ao longo de várias décadas do século passado pelo pintor francês Jacques Majorelle e, a partir dos anos oitenta, recuperado por Yves Saint-Laurent. Dezenas de espécies de cactos, fontes, pássaros ariscos, criam uma harmonia e um silêncio que, em muitos pontos da cidade, se julga impossível. A tranquilidade é valiosa, é necessária.

 

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Impressiona que, tão perto de Portugal, exista um mundo tão diferente. No centro desse mundo, entre a montanha e o oceano, existe uma cidade que condensa uma parte importante das suas riquezas. No centro dessa cidade, como no exacto centro do mundo inteiro, existe uma praça. É lá onde tudo começa e onde tudo termina.

 

À noite, existem focos de luz espalhados pela distância. Mesmo assim, não são suficientes para iluminarem bem a praça inteira. Caminha-se pela quase escuridão entre um ponto e outro. Um contador de histórias garante qualquer coisa em árabe. Quem o ouve e entende, abre bem os olhos, a imaginar. Há gente sentada em bancos de madeira, à volta de grelhas e de fumo, a segurarem espetadas com a mão e a tirarem cubos de carne com os dentes. O ritmo dos músicos não diminuiu, os tambores aproximam-se ou afastam-se, transportados pelo vento. Grupos de acrobatas equilibram-se numa pirâmide, os pés sobre os ombros ou sobre as cabeças. Alguém me toca no braço para me tentar vender um relógio. Passam motorizadas e carruagens puxadas por cavalos, passam crianças a correr. Um anão toca violino.

 

Amanhã chegará outro dia, oxalá. Será um dia completamente igual e completamente diferente deste. Essa é a natureza do tempo. Sim, amanhã chegará outro dia, oxalá, oxalá.

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publicado às 18:02

José Luís Peixoto participou no II Fórum de Literatura China-Portugal, realizado em Pequim, no Museu Nacional de Literatura Moderna Chinesa.

 

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publicado às 11:25



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