José Luís Peixoto participará em quatro conversas públicas, que terão lugar em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. As mesmas estão integradas no programa Vozes da Literatura Portuguesa, que é organizado pela Casa Fernando Pessoa e que tem lugar no contexto do Ano de Portugal no Brasil.
SÃO PAULO
21/05 (terça) - 20h00
SESC CONSOLAÇÃO - Rua Doutor Vila Nova, nº. 245, CEP: 01.222-020
Conversa entre Ana Luísa Amaral, Gastão Cruz e José Luis Peixoto, moderação de Inês Pedrosa
PORTO ALEGRE
23/05 (quinta)- 14h00
PUC - Av. Ipiranga, 6681 - Partenon - Porto Alegre
Conversa entre Ana Luísa Amaral, Gastão Cruz , José Luis Peixoto, Lídia Jorge, Patrícia Reis e Rui Zink
23/05 (quinta) - 17h30
INSTITUTO ESTADUAL DO LIVRO - Rua André Puente, 318, bairro Independência, Porto Alegre
Conversa entre Ana Luísa Amaral, Gastão Cruz , José Luis Peixoto, Lídia Jorge, Patrícia Reis e Rui Zink
RIO DE JANEIRO
25/5 (sábado) - 18h00
INSTITUTO MOREIRA SALLES - R. Marquês de São Vicente, 476 - Gávea RJ
Conversa entre Ana Luísa Amaral, Gastão Cruz , José Luis Peixoto, Lídia Jorge, Patrícia Reis e Rui Zink, moderação de Inês Pedrosa
Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.
Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.
A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.
Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.
Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.
Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.
É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objecto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.
Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoiévski. Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.
Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.
Hei-de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.
Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exactamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.
Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer. Habituem-se. Não tenho medo.
José Luís Peixoto, in revista Visão (Maio de 2013)
José Luís Peixoto dará uma palestra sobre a sua obra na Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, em Seul, no dia 9 de Maio, às 13 horas.
José Luís Peixoto colaborou no último número da revista McSweeney's e participará na leitura pública que terá lugar em Nova Iorque, no Joe's Pub, no dia 30 de Abril, às 21.30.
Participarão também Francisco Goldman, Clancy Martin, Wyatt Mason, Francesco Pacifico, entre outros.
Esta sessão está integrada no programa do festival Pen World Voices.
José Luís Peixoto estará em Bogotá a participar em algumas actividades literárias.
Estará também a promover a edição de colombiana de Te me moriste/Antídoto (Taller de Edición Rocca).
Dia 20 de Abril
10h30 - Centro Cultural Gabriel García Márquez, Livraria Fondo de Cultura Económica
José Luís Peixoto desenvolverá algumas ideias sobre a escrita literária.
16h - Feira do Livro de Bogotá - Sala Porfírio Barba Jacob, Corferias
Conversa entre José Luís Peixoto, Piedad Bonnett e Norma Valencia
Dia 21 de Abril
17h - Feira do Livro de Bogotá - Pavilhão de Portugal
Apresentação de Te me moriste/Antídoto por Miguel Ángel Manrique e o autor.
José Luís Peixoto na imprensa colombiana:
Uma versão de Os Lusíadas, feita por José Luís Peixoto, começou a ser distribuída com a revista Visão no dia 11 de Abril de 2013.
A totalidade da obra será apresentada durante 10 semanas, ao ritmo de um canto por semana.
Esta edição conta com imagens do grande mural de graffiti, que será feito ao longo desse tempo pelos ARM Collective.
A iniciativa desta edição faz parte da celebração dos 20 anos da revista Visão.
Excerto da versão de José Luís Peixoto:
CANTO I
As armas e os barões assinalados, etc? Calma, calma. Mais devagar.
Sem tempo, as ideias não querem aparecer.
De certeza absoluta que o poeta conhecia esta verdade simples. As palavras do seu grande poema transportam muito tempo, muita história e muitas histórias. Talvez fosse por isso que o poeta se dava com gente entendida no tamanho do tempo: navegadores, reis e deuses.
Imagine-se.
Escrevo sobre aquilo que o poeta escreveu e, ao fazê-lo, escrevo sobre um assunto de completa diferença, outro assunto mesmo. Se as palavras do poeta são um reflexo, as minhas são reflexo de um reflexo e a sua imprecisão é garantida.
Talvez por isso, creio-me capaz de pedir inspiração com a mesma força às ninfas do Tejo. Imagino-as diferentes, aposto. Dou-lhes rostos diferentes, outras caras, outros descaramentos, mas rogo-lhes com o mesmo fervor pela mesma habilidade grandíloqua e corrente.
Não estou ainda no passado, estou na crueza deste aqui. Tudo é concreto à minha volta. Enquanto que a voz do poeta se fixou na solene perfeição decassilábica, a minha voz gasta-se na indecisão da garganta, espécie de adolescência perpétua, mudança ridícula de voz, grave e aguda, grave e cana rachada.
Não procuro desculpas, ó ninfas do Tejo. Procuro adjectivos.
Na minha condição, sigo o poeta. Irá sempre faltar-me sê-lo. Entre mim e ele, a distância.
E, no entanto, por vezes e talvez por acidente, também nos aproximamos.
Nada é apenas uma coisa, nem sequer o número um, o canto um, a estância um. As armas e os barões assinalados, take dois.
Tágides do Tejo, ninfas da ninfetice total, apesar de mais velhas, mais maduras, emprestem-me ainda um resto do vosso ninfetismo para espalhar um pouco mais, mesmo que não seja por toda a parte, os feitos daqueles portugueses que navegaram por oceanos inéditos e, também, o valor daqueles reis desse mesmo Portugal, que o fizeram sinónimo de fé e o esticaram pelo mundo.
E que, pelo menos, não se fique a pensar que Taprobana é nome de avó antiga: Dona Taprobana, Ti Maria Taprobana. Não. Antes que sejam sugeridos outros delírios, é importante que fique assente: Taprobana era o antigo nome da ilha de Ceilão, metaforicamente significava o fim do mundo. Para explicação mais detalhada, é favor consultar a internet.
Aqueles de quem o poema épico fala, aqueles que espero ser capaz de referir também nas linhas que se seguem, passaram ainda além da Taprobana.
Se apenas mostrasse modéstia, a realidade seria desproporcional.
Hoje, ao escrever estas palavras, há uma colecção de assuntos que domino com mais segurança do que o próprio poeta. Tenho a vantagem do tempo que passou. Esse é o caso das referências a Dom Sebastião (Lisboa, 20 de janeiro de 1554 - Alcácer-Quibir, 4 de agosto de 1578). Não possuo os detalhes do seu último dia, mas avalio que a dedicatória do poeta, versos e versos, se revelou exagerada em muitos dos atributos que lhe reconhece. A confessa incapacidade de cantá-lo através da sua poesia é inflação do monarca e deficit do poeta.
Nos jornais de hoje, já se sabe o resultado dos arremedos do rei. O entusiasmo de sua majestade trouxe uma dinastia de mágoa. Nesse conhecimento, não posso garantir que o poeta continuasse a dedicar-lhe uma obra tão importante.
Ou talvez sim. Ou talvez não houvesse outro nos séculos deste país que mais o merecesse.
Creio que era um dia normal para os deuses.
O Olimpo estava pleno de luz, mas qual era a sua forma? Talvez os deuses se movessem apenas na luz, talvez o chão fosse uma espécie de neblina luminosa. Nesse caso, é bem provável que o Olimpo fosse o lugar dos sonhos. Tanto dos nocturnos, como das ilusões em vigília. Apesar da sua originalidade, esse também é um lugar dos mamíferos humanos.
Sem psicologia, a biologia é botânica.
Imagino Júpiter de barba, cabelo de caracóis largos, tronco nu.
Imagino Baco com a cara limpa, coroa de parras e cachos de uvas, corpo redondo e flácido.
Imagino Vénus com feições miúdas, tão linda, o tom certo de palidez, cabelos longos e brilhantes.
Imagino Marte com músculos eficazes e rosto ligeiramente triste.
Como numa reunião de condomínio ou num conselho de ministros, Júpiter lançou-se num longo discurso que já trazia preparado de casa. Percebia-se que tinha gosto em ouvir-se a si próprio. Nele, elogiou os navegadores portugueses, dando apreço aos seus trabalhos, à sua sobrevivência, defendendo a sua defesa, protegendo a sua protecção.
Baco, sóbrio, tinha uma perspectiva diferente pronta a ser comunicada. Proprietário de uma certa fama no oriente, temia que os portugueses ao chegarem lá pudessem roubar-lha, deixando-lhe apenas o amargo esquecimento. Cabe a cada um cuidar daquilo que é seu. Exaltado, Baco atacou a defesa dos portugueses, desprotegeu a sua protecção.
Chegou então a vez de Vénus, essa menina. Com voz delicada, véu ao vento, afirmou que os lusitanos portugueses lusíadas lhe faziam lembrar os seus gentis romanos. Falantes de uma língua rente ao latim, levariam o amor para onde quer que chegassem. Ela mesma, envolta em delicadeza, garantiria essa nobreza de sentimentos.
Por uma questão de tom, seria muito custoso a um brutamontes da estirpe de Baco contradizer uma donzela tão vaporosa. Mais difícil ainda quando Marte, incentivado por um amor antigo, fez o céu tremer com uma pancada do seu bastão. Levantando a viseira do elmo, exclamou palavras rijas, voz grossa, concordando com Vénus e encorajando Júpiter a não desistir das suas primeiras intenções. Esse recuo seria uma mostra de fragilidade. Ao mesmo tempo, as razões de Baco pareceram-lhe suspeitas, o próprio Baco pareceu-lhe suspeito.
Resultado final: 3 - 1.
Sem apito, Júpiter apitou o final da partida. Sem martelo, pumba, declarou encerrada a reunião.
Traduzione di Sandra Biondo
2013
L'Arcipelago Einaudi
pp. 304
ISBN 9788806212889
C'è un bambino accanto alla fontana di un piccolo villaggio portoghese. Ha solo sei anni e stringe un libro tra le braccia. Lo stringe forte come se da quel contatto dipendesse la sua sopravvivenza, come se quel volume definisse il volume di tutto il suo mondo. Perché in effetti il piccolo Ilídio non ha piú nulla: la madre l'ha abbandonato lí prima di emigrare in Francia, come molti portoghesi negli anni Cinquanta. Ilídio, nonostante tutto, crescerà e diventerà uomo, e conoscerà la fatica e conoscerà l'amore.
Ma quando anche Adelaide, l'adorata, la sognata Adelaide, sarà costretta a emigrare a Parigi, Ilídio non rimarrà inerme accanto alla fontana, da solo. Questa volta combatterà: anche se vuole dire affrontare un viaggio che ha il sapore epico dell'odissea verso la metropoli, seducente e crudele, del maggio del '68.
L'autore ha detto di Libro:
"Scrivere un romanzo vuol dire portare dentro di sé un segreto enorme. Provare a disfarsene parlandone non serve a niente. Il mondo diventa conoscibile solo dopo la scrittura. L'unico modo per liberarci del peso del segreto è scriverlo. Fino ad allora, è impossibile da condividere. Tutto ciò che non è il romanzo è incapace di comunicarlo. Mentre lavoravo a "Libro" dubitavo di me stesso, temevo che i personaggi non uscissero fuori, o la mia pelle assumesse la ruvidezza delle pietre del villaggio che riempiva i miei pensieri. Spesso, a metà di una conversazione, iniziavo a parlare con la voce di Galopim, di Cosme d'Ilidio mentre attende il ritorno della madre. A quell'epoca mi portavo addosso anni che non avevo mai vissuto ma che, durante la stesura del romanzo, respiravo in maniera assoluta, totale. Sono nato l'anno della Rivoluzione dei garofani, nel settembre 1974, ma le domeniche, durante gli interminabili pranzi di famiglia, i miei genitori e le mie sorelle ripetevano le storie di prima che io nascessi quando, durante la dittatura, erano emigrati in Francia. Esattamente come centinaia di migliaia di altri portoghesi. Un milione e mezzo di persone sono emigrate in Francia tra il 1960 e il 1974: circa il 15% di tutta la popolazione del paese. Questa era la dimensione del segreto che mi portavo addosso mentre scrivevo "Libro". I miei genitori sono tornati in patria pochi anni prima della mia nascita, stabilendosi nel piccolo borgo nell'entroterra di Alentejo..."
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