17 de Maio, às 18 horas, conversa entre António Lobo Antunes, Eduardo Lourenço e José Luís Peixoto. Entrada livre.
"Parto de ti, viajo nos teus caminhos, corro e perco-me e desencontro-me no enredo de ti, nasço, morro, parto de ti, viajo no escuro que deixaste e chego, finalmente, a ti."
in Morreste-me
(Aos dois, a minha gratidão pela consideração implícita neste gesto. JLP)
No dia 12 de maio de 2012, a partir das 14 horas, José Luís Peixoto estará a autografar os seus livros na Feira do Livro de Lisboa, no espaço do grupo Bertrand/Porto Editora.
Artigo sobre a nova geração de romancistas portugueses no número de Maio da revista Bravo! (Brasil).
Havia os dias em que eu acordava com as vozes das mulheres na tapada. Começavam a trabalhar bastante cedo porque o calor era por demais. A partir de meio da manhã, já custava aguentá-lo; a partir da tarde, já ninguém podia com ele. As mulheres eram a minha mãe, a minha avó e, talvez, alguma vizinha a quem a minha mãe tivesse pedido para ajudar. A essa hora, a luz do sol já se espalhava por tudo: pelos torrões de terra, grossos, secos, pelas folhas finas das oliveiras ou pelo toque dos sinos na torre da igreja, a marcar as horas com pancadas solenes. As vozes das mulheres, feitas de manhã, misturavam-se com tudo isto.
Quando eu chegava ao quintal e me inclinava sobre o muro da tapada, via-as a caiarem as traseiras da nossa casa. Usavam lenços na cabeça que as tapavam até ao pescoço e, sobre eles, chapéus de palha. Por cima da roupa, usavam batas; por baixo das saias, usavam calças. Molhavam os pincéis grossos na cal e raspavam-nos ruidosamente nas paredes. Para chegarem às partes mais altas, os rebordos dos beirais, prendiam pincéis na ponta de canas com vários metros de altura. Eu admirava-me com esse trabalho. A cal escorria pela parede, aguada e branca. A parede cheirava a cal, a pedra fresca. As mulheres estavam sempre bem-dispostas. Nessas manhãs, pareciam-me mais novas.
Na minha rua, havia paredes de casas que tinham tantas camadas de cal sobrepostas, ano após ano, que tinham perdido a origem da sua forma. Eram casas brancas, de superfície ondulada, com as esquinas arredondadas. Eu sabia que as suas paredes eram grossas e que, mesmo debaixo da maior força do calor, eram frescas. Por fora, com as portas apenas no trinco, não era preciso fechá-las à chave, pareciam grutas brancas, fortes e limpas. Mesmo quando as viúvas morriam e não havia ninguém para caiar essas casas durante anos, as paredes mantinham o asseio. Então, eu e as crianças da minha idade, arrancávamos lascas de cal com as unhas e, às escondidas, gostávamos de comer as mais fininhas.
Havia também os dias em que eu acordava mais cedo e assistia à maneira como as mulheres tiravam grandes pedras de cal de uma saca e as deixavam cair num bidão meio cheio de água. As pedras de cal faziam a água ferver. Era esse o fenómeno, parecido com um milagre, a que eu queria assistir. Depois, seguravam um pau com as duas mãos e mexiam essa água grossa, branca, que rebentava bolhas lentas, acompanhadas por barulhos líquidos, como um animal cansado.
Nesses dias, almoçávamos ensopado de borrego no quintal, à sombra dos pessegueiros. As mulheres falavam de qualquer assunto que as fazia sorrir, as suas vozes misturavam-se com o tempo. Eu ouvia-as, prestava atenção a cada frase, aquilo que diziam dissolvia-se em claridade, mas também reparava nas gotinhas de cal que lhes tinham secado na pele do rosto, a pouca distância dos olhos. Cal sobre a pele. Havia nitidez nas cores, a luz era toda verdadeira e, como o sol reflectido na cal, as mulheres encandeavam.
José Luís Peixoto, in revista UP (Abril 2012)
Agora, quando penso nisso, as nossas cores, as cores das nossas roupas e das nossas ideias são como um quadro de Renoir. Ficávamos sentados sobre a relva inclinada e, à nossa frente, como um rio, estavam as pessoas que subiam e desciam com sacos de plástico cheios de livros, que paravam para ver livros. Ficávamos sentados e apenas falávamos de livros, os que tínhamos comprado e, sobretudo, todos os que éramos capazes de imaginar. O mundo era um caminho que se abria à nossa frente, uma vertigem. Nós não tínhamos medo de nada quando líamos em voz alta de livros que trazíamos de casa. Sem que o soubéssemos, uma parte grande das nossas vozes era já definitiva, a maneira como hesitávamos era já definitiva. A sombra, o cheiro da relva e os altifalantes a anunciarem sessões de autógrafos. Agora, quando penso nisso, sinto um sabor doce nos lábios, fresco, é o sabor a supermaxi.
Agora, nesta tarde de calor, no nosso lugar, estão outros como nós. Compreendem tudo o que também nós compreendíamos, e já esquecemos. São ainda capazes do verão e, por consequência, da liberdade. Para eles, as palavras têm outro valor, encontram-nas em poemas que guardam em papéis dobrados no bolso de trás das calças, em livros que trazem de casa. As cores deles são nítidas como todos os objectos. Agora, enquanto subimos ou descemos, sacos de plástico cheios de livros, tentamos distingui-los e temos medo de já não sermos capazes de o fazer.
José Luís Peixoto, in Abraço
O facebook desactivou um dos meus perfis.
Tinha 2 perfis e 1 página, passei a ter 1 perfil e 1 página.
Aos poucos, o facebook tornou-se num meio que utilizo bastante para contactar com aqueles que se interessam por aquilo que escrevo.
Fiquei muito surpreendido quando o meu primeiro perfil atingiu o limite máximo de 5000 aderentes. Quando criei o segundo, estava convencido que não chegaria de novo a esse número. Enganei-me. Quando isso aconteceu, criei uma página (sem limite de aderentes).
Não me queixo da desactivação porque sabia que estava a desrespeitar uma regra importante do facebook, segundo a qual cada pessoa só pode ter um perfil.
Mas tenho pena.
No perfil agora desactivado estava em contacto com mais de 9000 pessoas (5000 amigos e mais de 4000 subscritores). Gostaria muito de continuar a poder comunicar com essas pessoas. Para isso, agradeço que, na medida do possível, me ajudem a dar conhecimento desta situação a essas pessoas, partilhando esta informação. Tendo perdido o perfil, perdi forma de lhes dar esta informação directamente.
Assim, poderão ter acesso a tudo o que disponibilizo pelo facebook através da minha página, aqui:
http://www.facebook.com/pages/José-Lu%C3%A
Ou através do meu perfil, aqui:
http://www.facebook.com/joseluispeixoto
Se eram meus amigos no perfil desactivado e querem continuar a ser, peço que, por favor, me escrevam uma mensagem para o perfil que acabei de referir. Na medida das minhas possibilidades, tentarei enviar alguns pedidos. No entanto, peço compreensão para o facto de não ser possível aceitar todos (como aconteceu com os que estão pendentes) e lembro que a subscrição permite ter acesso a toda a informação, comentar, etc.
Esta situação motivou-me para disponibilizar ainda mais textos e informação através desta via. Espero muito sinceramente que possam acompanhar-me nesse tempo que virá.
A mãe que chovia, de José Luís Peixoto. Nas livrarias em Portugal.
A mãe que chovia, com ilustrações de Daniel Silvestre da Silva, é o primeiro título de literatura para crianças de José Luís Peixoto.
José Luís Peixoto estará a autografar os seus livros na Feira do Livro de Lisboa junto ao espaço da editora Quetzal, nos dias 5 e 12 de Maio, a partir das 17 horas.
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