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Estava demasiado calor naquele hotel sem ar condicionado. Numa cidade pequena do interior da Rondónia, num extremo do vasto Brasil, depois de milhares de quilómetros, depois de estradas intermináveis, depois de paisagens intermináveis, arrumado à fronteira com a Bolívia, eu mantinha um sono ligeiro, destapado, agitado, desconfortável. Quando o telefone tocou, eu não sabia que horas eram.

 

Eram cinco e meia da manhã. No auscultador, a milhares de quilómetros, uma voz deu-me a notícia que o meu amigo tinha morrido.

 

Só despertei realmente depois de entender essas palavras. Foi como se faltasse um segundo ao tempo.

 

Vesti umas calças e saí do quarto. Descalço e em tronco nu, dei passos no corredor sem saber para onde ia. Levantava-se um amarelo muito grosso sobre os telhados da cidade, a manhã começava a nascer devagar. Eu tinha um bom posto para assistir a essa vaga de claridade porque, no fim do corredor, cheguei a uma varanda aberta sobre as casas baixas, as ruas paralelas, perpendiculares, de terra vermelha, varridas, com árvores enormes, folhas e pássaros, pés centenários de manga.

 

O céu era grande e existia por cima de tudo isso.

 

Foi nesse silêncio que consegui pensar no que tinha acontecido. Então, telefonei à Ana, mulher do meu amigo, viúva, minha amiga também. O telefone a chamar: uma nota sustentada, repetida, estridente. Não foi a Ana que atendeu, foi uma voz séria. Pronunciei o meu nome, perguntei se podia falar com ela e passaram-ma. Estava a chorar. Disse-lhe aquilo que consegui.

 

Quando desliguei, as lágrimas eram quentes e desacertadas de tudo o que tinha diante de mim. Sem pressa, avançavam bicicletas ao longo das ruas da cidade. Ao ritmo de pedaladas demoradas, escutava-se o rolar das rodas de borracha na terra lisa, às vezes a resvalarem muito ligeiramente. Sentados no selim dessas bicicletas iam rapazes e raparigas de uniforme. Dirigiam-se para mais um dia de liceu. Com frequência, passavam aos pares, duas bicicletas lado a lado, rapazes de calças passadas a ferro, raparigas de saia, meias brancas, cabelos presos com um laço, a rirem-se despreocupadas.

 

A Ana estava no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, rodeada pela falta de sentido da morte. Eu era ainda capaz de distinguir o eco do choro, o peso das palavras que tinha usado. Mas, mais do que essa impressão, eu era capaz de imaginá-la com toda a nitidez, naquele preciso momento, no hospital, rodeada.

 

Das primeiras vezes que fui a casa do Urbano, lembro-me de um armário enorme, de madeira maciça, trabalhada, que estava na sala. No interior, guardava pilhas de livros seus sem organização. Quando se estendia a mão, tanto se podia agarrar um volume português, com décadas, como podia tratar-se de um tradução búlgara, húngara, romena de um livro seu que nem ele próprio conseguia identificar.

 

Ao longo dos anos, subi muitas vezes as escadas de madeira desse prédio. Cruzava-me curioso com os casais que saiam da pensão e, quando tocava à campainha, escutava os passos cada vez mais lentos do Urbano a atravessar o longo corredor e, depois, a sua voz através da porta, antes de abrir.

 

Quando morre um amigo, sente-se o fim de uma época. Nesse momento, a pele irreversível do passado ganha uma realidade objectiva, absoluta. Como uma pedra atirada às águas da barragem, a afundar-se no líquido, no fresco e na escuridão. E, de repente, o tempo, a idade, o tamanho de uma vida: assuntos que o Urbano conhecia bem.

 

A última vez que estivemos juntos foi há alguns meses, na livraria Barata, na Avenida de Roma. Tive sorte. Ao apresentar-lhe o seu último livro, pude sentir a ilusão de devolver-lhe um pequeno grão da infinita generosidade que sempre colocou nas centenas de livros que apresentou. Além disso, foi numa livraria. Não me lembro de melhor lugar para nos despedirmos. Nesse dia, o Urbano sorriu muito e fadigou-se de tanto entusiasmo. Foi um dia bom.

 

Tivemos esse dia. Tivemos as nossas conversas, eu a conduzir, ele a falar-me de outros mundos e de outros tempos, tivemos os nossos filhos pequenos a brincarem diante de nós, tivemos os livros, as aulas na universidade, algumas viagens, Paris, Madrid, e os abraços. Tivemos os abraços.

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (setembro, 2013)

 

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(Fotografia de JLP, a 9 de agosto de 2013, em Guajará-Mirim, Rondónia, Brasil.) 

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publicado às 11:57

Galveias no mundo é um blogue onde se podem ver fotos de leitores com o romance Galveias em diversos lugares do mundo. Para aceder a essas imagens, clique AQUI

 

Se quiser contribuir com imagens do romance Galveias em lugares onde o esteja a ler, envie email para:

apoioblogjlp @ gmail.com

 

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publicado às 09:29

Dívidas

26.07.15

  

Quanto devemos aos bombeiros voluntários? Enquanto estamos aqui, preocupados com os nossos assuntos, a tratarmos daquilo que nos diz respeito, eles estão disponíveis para serem arrancados da sua vida e colocados à frente de chamas, incêndios que não foram ateados por eles, a arrasarem propriedades que não lhes pertencem. É domingo à tarde, por exemplo, e, de repente, estão num carro a alta velocidade, arrastam uma sirene desesperada ao longo do caminho. Encontram aflição quando chegam, desenrolam uma mangueira áspera e respiram golfadas de fumo que lhes mascarra as faces. Passam horas assim e, no final de tudo, a sua recompensa será assistir à desolação de um campo negro e, talvez, beber de um pacote de leite oferecido por alguém.

 

Há bombeiros voluntários que morrem durante esse trabalho. Quanto devemos à sua memória? Quanto devemos às famílias desses bombeiros mortos? Agora, onde estiverem, sentem a sua ausência em todos os dias. São pais, filhos, maridos, mulheres, irmãos que imaginam como seria a vida daqueles que perderam, imaginam-nos com idades que nunca chegarão a ter.

 

Quanto devemos aos técnicos do INEM? Quanto devemos aos enfermeiros? Quanto devemos às pessoas que recebem os doentes nas urgências dos hospitais? São poucos os que têm paciência de preencher os papéis, mas os papéis precisam de ser preenchidos.

 

Quanto devemos aos professores? Não sabem onde vão trabalhar para o ano, não sabem se terão trabalho. Quanto devemos aos jovens em cubículos de call-centers? Quanto devemos aos estagiários não remunerados? Quanto devemos aos vendedores com excesso de habilitações? Quanto devemos aos desempregados?

 

Quanto devemos aos músicos? Depois de aprenderem a tocar, passam anos a fazê-lo de borla para nosso divertimento e, garantem-lhes, para mostrar o seu trabalho. Ao fim da noite, entre o público, poucos considerarão trabalho aquilo que eles fizeram. E quanto devemos aos bailarinos? Quanto devemos às bailarinas? Quanto devemos às atrizes? De repente, colocam-nas no centro de todos os olhares, de todos os julgamentos, a troco de uma oportunidade. Uma oportunidade de quê? Uma oportunidade de uma oportunidade. Serão velhas e terão a mesma maquilhagem. Quanto devemos a todos os que trabalham para que exista teatro e cinema neste país?

 

Quanto devemos aos desportistas das chamadas modalidades amadoras? Levam o equipamento na mochila, vão para o treino depois do trabalho, chegam tarde a casa. Os fins-de-semana são pequenos, acabam depressa. E quanto devemos aos atletas paralímpicos? Com muita probabilidade, quando os jogos forem notícia, havemos de contar medalhas de modalidades que desconhecemos e teremos moral para exigir; diremos cinco ou seis, sem nos lembrarmos que, atrás de cada uma, está o esforço contínuo de alguém durante anos.

 

Já que falamos nisso, quanto devemos àqueles que têm mobilidade reduzida e que não podem sair de casa? Não há rampas, há carros estacionados em cima de passeios com buracos, não há dinheiro para comprar a cadeira de rodas adequada. São prisioneiros sem culpa formada, sem acusação, sem julgamento. Foram condenados a prisão domiciliária. Não há data marcada para o fim da sua pena.

 

Quanto devemos aos guardas prisionais? Estão agora atrás de muros, rodeados de ameaças. Quanto devemos aos homens do lixo? Queixamo-nos do barulho que fazem quando recolhem o nosso próprio lixo. Não queremos ser incomodados, estamos a repousar. Quanto devemos às mulheres-a-dias? Havemos de culpá-las se desaparecer alguma coisa. Quanto devemos aos coveiros?

 

E quanto devemos aos credores internacionais? Definiram juros e emprestaram aquilo de que não precisavam a outros que estavam aqui e que se retiraram na hora de pagar. Ficámos cá nós, não temos para onde ir. A propósito, quanto devemos àqueles que emigraram? Deixaram a família contra a sua vontade. Vimo-los partir. Sentimos a sua falta.

 

Afinal, quanto devemos aos bancos e às instituições económicas internacionais? Nunca lidámos com elas. Os acordos foram feitos em nosso nome mas, tantas vezes, sem o nosso conhecimento. Enquanto isso acontecia, estávamos a viver, acreditando que contribuíamos para a construção, dignidade e prosperidade do país a que pertencemos. Quanto devemos a nós próprios?

 

Não se trata de não pagar as nossas dívidas, trata-se de saber a quem devemos.

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Julho 2015)

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publicado às 08:40

7 títulos da autoria de José Luís Peixoto fazem parte da selecção do Plano Nacional de Leitura:

 

- "Confusão no Corredor dos Enlatados", edição Clube do Leitor, 2015 (Projecto Zero Desperdício) - indicado para leitura autónoma de alunos do 3º ano.

 

- "A Mãe que Chovia", Quetzal Editores, 2012 - indicado para leitura autónoma de alunos do 3º cíclo (7º a 9º ano).

 

- "Livro", Quetzal Editores, 2010 - indicado para alunos do secundário (10º a 12º ano).

 

- Morreste-me, Quetzal Editores (1ª edição de 2000) - indicado para alunos do secundário.

 

- Dentro do Segredo, Quetzal Editores, 2012 - indicado para formação de adultos.

 

- Abraço, Quetzal Editores, 2011 - indicado para formação de adultos.

 

- Galveias, Quetzal Editores, 2014 - indicado para formação de adultos. 

 

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publicado às 18:01

José Luís Peixoto escreveu livro infantil "Confusão no Corredor dos Enlatados" para apoiar uma campanha contra o desperdício alimentar levada a cabo pelas associações Zero Desperdício e Dariacordar. Com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, o livro está disponível em todas as escolas concelho. O livro é ilustrado por Catarina Bakker. 

 

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publicado às 11:23

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publicado às 15:32

Dia 16 de junho, 10h, Faculdade de Letras da UFRJ, na Sala João do Rio.

 

Dia 17 de junho, 19h, Colégio Pedro II (Humaitá), conversa com Paula Fábrio e Juve Batella, no âmbito do encontro literário Rio em Prosa

 

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publicado às 14:54

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publicado às 01:48

No Jardim de São Pedro, ou noutros espaços da terra, é fundamental encontrar alguém para conversar sobre a vida e as histórias de Galveias.

 

Terreiro - Referido em Galveias, Abraço, Nenhum Olhar.

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Fonte - Lugar onde o Ilídio é abandonado no início de Livro.

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Rua de São João, Rua JL Peixoto - Presentes em diversos textos de Abraço.

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Caminho até Monte de Sepúlveda - José faz esse caminho a pé por diversas vezes no romance Nenhum Olhar. Isabella é morta na berma desse caminho no romance Galveias.

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Herdade do Cortiço (antes de chegar ao Monte da Torre à esquerda) - Campo onde cai a coisa sem nome do romance Galveias.

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Monte da Torre de Sepúlveda - Inspiração para Monte das Oliveiras no romance Nenhum Olhar.

 

Clicar para ver foto do Monte da Torre de Sepúlveda.

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Fonte da Moura - Inspiração para barragem do conto "O último dia de todos os verões", do livro Cal.

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Capela de São Saturnino - Lugar onde se passa cena final de Galveias

 

Clicar para ver foto da Capela de São Saturnino.

 

 

Outros locais de interesse:

Nicho do trabalhador

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Igreja matriz

Igreja da Misericórdia

Escola Primária 

  

 

A presença de Galveias é muito viva nos livros Nenhum Olhar, Cal, Livro, Galveias, Abraço ou Morreste-me, mas existem também referências menos evidentes em Cemitério de Pianos ou mesmo em Uma Casa na Escuridão.

 

Para além destes, existem diversos espaços que estão presentes nestes livros, mas que não são aqui recomendados por serem privados ou de visita inapropriada.

 

 

Há, naturalmente, muitos outros pontos de interesse, como é o caso das piscinas Oásis no verão. Estas sugestões não impedem uma descoberta espontânea de Galveias. Pelo contrário, encorajam-na. 

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publicado às 01:11

José Luís Peixoto autografará os seus livros na Feira do Livro de Lisboa no dia 31 de maio, domingo, a partir das 15h, junto à área da Quetzal Editores (Porto Editora).

Devido a diversos compromissos, essa será a única ocasião em que o autor poderá estar presente. 

 

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publicado às 09:46



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Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.

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