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Todo o silêncio

28.10.14

 

De nome inteiro, o escritor está sentado à mesa. Quem terá tratado do arranjo de flores que tem à sua frente? O microfone funciona.

 

Enquanto apresento o meu livro em bibliotecas e livrarias, acabo quase sempre por te referir. Nesses momentos, és personagem de episódios, autor de frases, portador de lições que ainda fazem sentido. Muito raramente, como se me espreitasses através de uma frincha, o teu olhar pode atravessar essas palavras que escolho para te mencionar. Eras chuva de muitos dias seguidos, essas palavras são uma gota.

 

Não é possível saber o que entendem as pessoas que me olham. Posso imaginar o que quiser a partir da sua atenção, escolho a melhor possibilidade, a mais benévola. Leio algumas páginas do livro em voz alta, exactamente como se estivesse a descobri-las.

 

O escritor está disponível para autografar os seus livros. Por favor, formem a fila nesta direcção. A minha caligrafia, embaraçosa como a minha voz gravada em vídeos antigos de festas de anos. De cada vez que escrevo o meu nome, o teu nome vai sobreposto ao meu. Da mesma maneira, lá no cemitério, no mármore, o meu nome está sobreposto ao teu.

 

Um homem de quarenta anos deitado sobre uma cama de hotel, iluminado pela televisão ligada. Com esta idade, mais do que nunca, distingo-te em mim. Entrava no teu quarto à noite, vias qualquer coisa na pequena televisão a preto e branco, e deitava-me ao teu lado. A minha pele tem a mesma cor da tua. Sou capaz de comparar as minhas mãos com as tuas. Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão. Tento rejeitar esses pensamentos. Não quero, esse tempo é demasiado cedo para morrer, mas, como também sabes, importa pouco aquilo que queremos.

 

Amanhã, o André faz dez anos, mas tu não chegaste a conhecer o André. Às vezes, distingo-lhe traços teus, maneiras. Se for real e possível, se os meus olhos não estiverem deturpados pelo que quero ver, fui eu que transportei esses pequenos gestos. Levei-os talvez naquilo que faço todos os dias, nas minhas próprias maneiras. Como serias tu com dez anos? O André já ouviu falar muito de ti. Contei-lhe histórias que não chegam para que te conheça.

 

Aquele gajo que aparece na televisão sentou-se no restaurante e escolheu o prato do dia. Não vai querer as entradas, pois não? Juntos, pousámos os cotovelos em toalhas de papel como esta. Essas eram horas boas. O passado ficou com todas as conversas que tivemos à espera que chegasse a comida ou, depois, diante de nódoas de gordura e migalhas de pão. Agora, consigo recordar-nos em restaurantes como este, mas não temos som, não consigo reconstruir nenhuma das conversas que tivemos. Talvez falássemos de temas muito ligados à véspera desses dias distantes, ou talvez a minha memória tenha deixado de guardar essa informação, precisou do espaço para qualquer outro assunto.

 

Já depois da conta, o senhor do restaurante deseja-me sorte para os livros, e aponta para a televisão onde me viu, presa à parede. Agradeço e, nesse momento, entendo de repente a simpatia pouco habitual, o sorriso a despropósito.

 

Sim, pai, às vezes, vou à televisão falar dos meus livros.

 

É difícil explicar. Haveria de surpreender-se bastante com aquilo que aconteceu. Nunca apareci na pequena televisão a preto e branco que tinha no quarto e, com toda a sua capacidade de idealizar o futuro, haveria de ficar incrédulo se alguém lhe contasse. O meu pai não tinha forma de imaginar que, um dia, com este caminho feito, eu seria um escritor a dar autógrafos.

 

Para o meu pai, serei sempre um rapaz de futuro incerto, com a carta de condução acabada de tirar, a estudar para ser professor. Quando pousava as pálpebras sobre os olhos, o sofrimento, sei que uma das suas preocupações era: o que irá ser deste rapaz? Ele próprio, muitas vezes, dizia esta frase. Dentro de mim, sou capaz de ouvir a sua voz a dizê-la.

 

Agora, nada pode mudar esse facto. Mesmo que passe o resto da minha vida a escrever livros, mesmo que sejam lidos por milhares e milhares de rostos atentos, mesmo que o meu nome seja repetido todos os dias em bibliotecas e livrarias. Para o meu pai, nunca serei escritor.

 

José Luís Peixoto, in revista Visão, 23 de outubro de 2014

 

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publicado às 10:01

Na revista Visão.

 

No jornal i.

 

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publicado às 23:12

PORTO - dia 15, 18h30 - Teatro Rivoli
BRAGA - dia 16, 18h - Fnac Braga, Braga Parque
COIMBRA - dia 17, 18h30 - Café Santa Cruz
AVEIRO - dia 18, 18h30 - Bertrand, Forum Aveiro
LEIRIA - dia 19, 17h - Livraria Arquivo

 

Em breve, serão anunciadas mais datas de apresentações.

 

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publicado às 13:34

11 de Outubro de 2014, Esplanada de São José, Galveias

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publicado às 18:07

 

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publicado às 23:56

 

Foto de Simone Sartori.

30 de agosto de 2014, Bienal do Livro de São Paulo

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publicado às 17:13

 

No dia 30 de agosto, a partir das 20h, José Luís Peixoto terá uma conversa pública com Sebastião Salgado.

Essa conversa decorrerá na Bienal do Livro de São Paulo e será seguida de uma sessão de autógrafos.

 

 

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publicado às 15:53

Aqui ficam algumas fotografias e vídeos das actividades de JLP em Timor-Leste. Entre 22 de julho e 1 de agosto de 2014,em várias cidades de Timor-Leste, foram levadas a cabo apresentações da sua obra, encontros em escolas de diversos níveis de ensino e em diversos pontos do país, debates com autores timorenses, uma oficina de escrita de narrativa ficcional na Universidade Nacional de Timor Lorosae, encontro com leitores e autógrafos, entre outras actividades.  

 

Na Escola de Referência de Maliana: 

 

 

Leituras na Escola de Referência de Maliana:

 

 

 

 

Apresentação do livro "A mãe que chovia" por alunos da Escola de Referência de Ermera:

 

Na Escola de Referência de Ermera:

 

 


Leitura de poema "na hora de pôr a mesa, éramos cinco" traduzido em tétum:

 

 

 

Oficina de escrita na Universidade de Timor Lorosae:

 

 

 

Poema "na hora de pôr a mesa, éramos cinco" musicado por alunos da UNTL e apresentado na Feira do Livro, em Díli: 

 

 

Apresentação no Parlamento Nacional de Timor-Leste:

 

 

Cartaz de encontro público no Museu da Resistência, em Díli:

 

 

Após apresentação na Escola Portuguesa de Díli:

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publicado às 11:29

A quinta edição do livro de poesia "A Casa, a Escuridão" chega às livrarias portuguesas a 4 de julho de 2014.

 

 

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publicado às 15:53

 

José Luís Peixoto autografará os seus livros na Feira do Livro de Lisboa nas seguintes datas:

 

Dia 13 de junho de 2014, a partir das 16h

 

Dia 15 de junho de 2014, a partir das 16h

 

 

Junto ao espaço da Quetzal Editores.

 

 

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publicado às 15:46



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Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.

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